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sábado, 11 de junho de 2011

Sr. Maklof

Piotr estava fulo da vida. A KGB tinha o mandado em missão para Viena. Sua missão era proteger o Sr. Maklof, um homem que parece nunca ter pegado em uma enxada na vida. Ele e seu odioso disfarce de burguês. Primeiro, o pegou na estação, depois o levou até o hotel onde passou a noite toda se revezando com um colega na vigilância do quarto do tal agente secreto.
O objetivo era claro: impedir que o Robert Bird, o americano, não vença Alexei Kameniev na final do Campeonato Mundial de Xadrez. No entanto, Piotr e o outro cara levaram o "senhor burguesinho" ao campeonato e ele não fez nada demais a não ser assistir a partida.
Piotr pensava que ele iria tentar envenenar o americano, mas nem isso. Ele só sentou e ficou ali olhando. Sorte que o americano perdeu a concentração, começou a suar, e perdeu o jogo.
Ivan, o outro agente que fez a segurança, acredita que isso foi tudo um plano para desviar a atenção. Ivan confia cegamente na KGB. O importante para Piotr é que ele irá receber por um trabalho que não teve nenhum tipo de risco.
-Quer saber como eu fiz?
Perguntou o Sr. Maklof, no banco de trás do carro enquanto Piotr dirigia.
-Desculpe, senhor?
-Quer saber como eu fiz?
Piotr estava tentando entender.
-Seu amigo aí não pára de se perguntar o que eu devo ter feito na partida.
Piotr acredita que ele se equivocou: "mas, ele não falou nada até agora".
-Ele não falou, mas está pensando nisso.
Piotr não continuou a conversa. Seu ódio aumentou ainda mais. Mais um burocrata metido á ricaço tentando humilhá-lo.
-... Assim como você está pensando que eu sou um "burocrata metido á ricaço tentando humilha-lo".
-O quê? Como o senhor conseguiu isso?
-Existem pessoas que tem certas capacidades, como mover objetos com a mente ou mesmo penetrar na mente de outras pessoas. Eu sou uma dessas pessoas. O governo tem um departamento especial para elas. O que eu fiz hoje é só um treino. Eu bombardeei a cabeça do americano com informações, atrapalhando-o.
Piotr e Ivan estavam boquiabertos. Mas continuavam um pouco céticos. Maklof percebeu:
-Tá certo. Vou provar para vocês: pensem em um nome qualquer, que não seja de ninguém famoso.
Piotr resolveu fazer um esforço e pensou no nome do velho carpinteiro da aldeia em que foi criado. Ele era judeu e se chamava Marc Rodenko ou Rottenko...
-Ivan, você pensou em Martha Mirischa, sua primeira namorada, enquanto Piotr está tentando se decidir se seu vizinho carpinteiro se chamava Rodenko ou Rottenko.
Era a prova definitiva.
-O senhor pode entrar na mente de qualquer pessoa?
-Sim, por isso nosso objetivo é tão importante. Novos espiões assim como eu podem conseguir informações sem correr muitos riscos. Basta apenas se aproximar da pessoa certa.
-Qualquer informação?
-Basta fazê-la lembrar dela sutilmente. Ás vezes, a simples menção de uma palavra-chave ajuda a fazer a pessoa lembrar de algo importante.
Ivan se angustiava assim que percebeu a real dimensão do que fazia parte:
-Mas nós não deveríamos estar falando disso, não é?
-Não se preocupem. Essa missão também é um teste para aprimorar uma outra capacidade minha: apagar mentes...

sábado, 4 de junho de 2011

Sarita ou um Princípio Maquiavélico que voa

O vilarejo todo estava desconfiado. Havia dias que o demônio Sarita ainda não tinha aparecido. Sua visita mensal estava mais que atrasada. Alguns viam como alívio, outros, no entanto, se preocupavam. De qualquer forma, o ritmo do vilarejo não se alterou. A safra mensal de Sarita já estava preparada. Tudo estava como sempre esteve, mas podia se perceber nos olhares e no silêncio que algo estava por vir.
Numa noite de quinta-feira, na hora da janta, ouviram-se o grunhido agudo do monstro. As crianças foram levadas para seus quartos, junto com suas mães. Os homens saíram de casa, prontos para o que viesse.
Só o que podiam ver no breu da noite era uma silhueta cortando o céu ligeiramente. Depois de alguns minutos, Sarita posou num lugar afastado dos lampiões acesos. O líder da comunidade, Adenar, se destacou na multidão de homens:
-Nós já coletamos sua oferenda, Sarita.
O monstro demorou a responder, mas quando o fez sua voz estava diferente, mais estridente que de costume:
-Não quero sua oferenda. A única coisa que quero é um de vocês. Um de vocês que seja instruído na arte da fundição.
Havia muito tempo que Sarita não exigia um sacrifício, por isso todos se assustaram.
-Você quer... nosso ferreiro?
-Não quero morto, quero ele vivo!
O ferreiro se encontrava ali, na multidão. Se chamava Mergal e era um dos homens mais confiáveis da comunidade. Depois de Adenar, era o segundo no comando. Mergal engoliu seco a determinação do monstro. Mas depois resolveu protestar:
-O que te fiz, Sarita?
A resposta demorou a vir novamente.
-Tenho minhas razões. Ou você vem comigo ou levarei as crianças comigo!
Alguns repreenderam Mergal pelo seu sobressalto. O ferreiro decidiu aceitar o seu destino:
-Então pode me levar!
-Hoje não, amanhã... Quero que o amarrem no antigo altar antes do amanhecer!
Com essa última palavra, Sarita abriu suas asas e começou a voar, saindo da penumbra rapidamente, como se fosse um enorme morcego.
Os homens logo começaram um alvoroço.
-Vocês ouviram o que ele disse! Temos que te dar pra ele!
Adenar aparta a confusão:
-Calma, calma! Podemos pensar em uma maneira de impedir isso.
Mergal, contudo, discorda de seu amigo:
-Não se preocupe, Adenar. Eu estou preparado para isso.
Ao dizer isso, mostrou seu facão preso ao pulso.
-Na primeira oportunidade que tiver matarei a criatura!

Ao final da madrugada, Mergal já se encontrava amarrado em um mastro num antigo altar de pedra no meio da selva. Os primeiros raios de sol estava surgindo entre as montanhas e o coração de Mergal disparara. Olhava para todos os lados esperando Sarita chegar. Ouviu então um bater de asas. Atrás de si, vindo como um míssil, apareceu o monstro. Com suas garras arrancou o homem com mastro e tudo do altar. Enquanto o carregava para seu ninho, Mergal começava a cortar lentamente a corda com o facão escondido em seu braço. Assim que se viu livre apunhalou o monstro na altura da barriga. Nada aconteceu. O animal nem se moveu. O facão, por sua vez, tinha entortado. Mergal começava a recalcular suas chances. Decidiu tentar matá-lo cortando seu pescoço. Subindo lentamente pelas suas costas, o ferreiro atingiu o pescoço da criatura e começou a esfaqueá-lo. Na parte de cima, a dura couraça não permitiu qualquer ferimento, mas a medida que foi descendo com a faca sentiu que algo tinha se rompido. Logo começou a escorrer o sangue negro do monstro e suas asas começaram a perder o compasso. Sarita estava caindo sem soltar ruído algum. Esbarrou com tamanha força em um trecho das enormes montanhas que cercavam o vale que Mergal foi atirado á uma distância considerável. Depois de se recuperar da queda, o ferreiro decidiu conferir se o monstro tinha realmente morrido.
Aproximou-se da pequena cratera que seu corpo tinha aberto das rochas. Enxergava agora nitidamente o animal: seu rosto era como de um pássaro, uma garça, mas com dentes afiadíssimos. Seus olhos eram pequenos e lembravam olhos de bonecas. Seu corpo parecia coberto de escamas, mas lembravam muito as tramas de uma armadura. Suas asas não tinham penas, eram coladas aos longos e finos braços que possuíam no seu final garras pontiagudas. Uma poça de seu sangue se formava próximo da cabeça. O cheiro lembrava uma substância que Mergal conhecia: querosene. Ao ouvir sons vindo de seu interior, Mergal colocou a arma em punho e se preparou para um novo ataque. No entanto, a barriga do monstro abriu-se e de dentro dela saiu um homem. Cambaleando, ele acabou por cair no chão. Olhando o finado monstro, pôs-se a lamentar:
-Não! Não! Não é possível!!
Mergal se aproximou do franzino homem que tinha alguns cortes nas cabeças e nos braços e tentando entender essa cena absurda perguntou:
-Quem és tu e porque saíste desse monstro?
-Seu idiota! Viu o que fez?
-Me responda!
-Eu sou Sarita. Eron Sarita...
-Você é a criatura?
-Não, eu apenas a manipulava. Ela é uma máquina, vê?
-Você criou essa monstruosidade? Mas para que finalidade?
-Eu não a criei. Eu ajudei a construir, mas o verdadeiro criador era o Doutor Celanto. Ele tinha a projetado. Ele que me trouxe para cá!
Mergal avançou e colocou o facão contra o pescoço do homem:
-Me responda agora: por que construíram esse mosntro? Por que nos aterrorizavam?
-E-eu só obedecia as ordens do doutor. Ele se mudou para esse platô há uns anos, trouxe uma caravana de famílias pobres para cá. Ele queria fazer uma experiência...
-Que tipo de experiência? Nos aterrorizar? Se divertir com isso?
-Não, não! Ele queria construir uma sociedade perfeita, pacífica, entende? O mundo lá fora estava ruindo aos poucos em guerra mundial, ele só queria construir um mundo melhor aqui nesse platô, já que ele é distante de tudo. Doutor Celanto era um grande inventor, ele tinha inventado muitas das armas para as guerras, mas sua intenção não era que elas fossem usadas como armas, entende? Os governos se apropriaram delas e... é uma história muito longa. Ele veio pra cá, eu e mais dois rapazes éramos seus ajudantes. No começo, ele tentou criar pequenos vilarejos onde suas máquinas ajudavam na colheita, calculavam os seus rendimentos. Mas com o tempo, um vilarejo ficou mais forte que o outro e começou uma guerra para dominar os demais. O Doutor se desiludiu mais uma vez...
-Eu já ouviu algo parecido... É a lenda da época de ouro!
-Sim, era o seu vilarejo que começou a guerra...
-E esse Doutor... ele era o profeta da montanha?
-Sim, sim! Quando ele viu que seu projeto tinha saído do controle, ele apareceu dizendo ser um profeta e disse que o preço da guerra seria o mosntro que ele tinha solto. Ele construiu esse monstro para convencer vocês a desistirem da guerra. Ele até mandou aqueles dois colegas meus para convencerem os líderes dos vilarejos, mas eles foram linchados. Depois disso, o Doutor achou que a experiência tinha que mudar. Ele achou que a sociedade perfeita é construída com medo e que o fato de existir um monstro que tiraniza as pessoas é o único meio de fazer elas se unirem.
-Mas você fez o vilarejo de Banilla ser destruído!
-Não, o líder deles disse que eu tinha ordenado o suicídio coletivo e eu nunca disse isso! Não tenho culpa se as pessoas se aproveitam da minha existência. Tudo o que eu pedia era mantimentos, uma parte da colheita, para sobreviver.
-E os sacrifícios?
-O Doutor me pediu que eliminasse os dissidentes, os mais agressivos.
-Onde está esse Doutor? Eu quero vê-lo.
-Não pode. Ele morreu há um ano! Desde então eu vivo com o que vocês me dão. No entanto, eu não tenho os conhecimentos dele, não consigo fazer a manutenção do monstro. Por isso eu precisava de algo tipo um mecânico, como você.
-Um ferreiro?
-Sim. Pense bem, você pode ser meu sócio! Você me ajuda a consertar o monstro e ficaremos ricos!
-Não, esse é o fim do seu monstro! Estamos cansados de viver com medo!
-Você não entende. Depois que todos souberem que ele não existe, vai ter guerra de novo. Vocês vão se matar! Veja como seu vilarejo é perfeito: todos unidos, todos valorizam um ao outro, todos felizes...
-Não pode ser feliz com medo!
-E o que vai fazer comigo então?
-Você não merecer ser morto, você é digno de pena! Te levarei para a cidade onde deverá ser preso.
-Mas eles me matarão lá!
-Você vem comigo, não tem escolha...
Eron foi levado á vila, onde foi julgado e condenado á prisão pérpetua. No entanto, um dia a cadeia foi invadida por uma turbe raivosa e ele foi linchado. O monstro foi levado até a vila onde foi exposto como troféu por Mergal e, algum tempo depois, como símbolo da superioridade de seu vilarejo quando este dominou todo o vale. As pequenas vilas que viviam para pagar tributos ao rei Mergal com medo de serem atacadas por seu exército eram muitas. Parece que Mergal tinha aprendido á lição de Celanto.

Ader Rotten ou a Selva do Desentendimento

Os soldados embrenhavam-se na selva. Como toda selva, maravilhava e amendrontava a um só tempo. Alguns soldados se admiravam das cores psicodélicas das plantas e com outras formas de vida nenhum pouco menos bizarras. Mas o que mais se teme é o inimigo, sempre.
De repente um urro estridente quebra a harmonia, como se fosse emitido pelas entranhas da própria floresta. Não, era uma ordem de ataque. Em alguns minutos os inimigos estarão aqui. Diante de tal possibilidade apenas dois soldados ficaram para ver aonde ia terminar a história. O batalhão inteiro correu em direção ao rio de onde aportaram. Alguns oficiais foram atrás com o pretexto de acabar com esse desacato. Só que se podia ouvir era o som que vinha do chão, como se uma poderosa manada estivesse chegando e com ela arrastando toda a floresta.
Bem, o som serviu de incentivo para muitos soldados apressarem seu passo. Já se podia ver o barco, apesar de camuflado podia se reconehcer alguns de seus contornos. A marcha, contudo, se aproximava cada vez mais e já podia se ouvir os gritos de dor dos soldados que ficaram para encarar o inimigo. O oficial encarregado do barco, ao ouvi-los, deu um pulo de sua cadeira e começou a preparar sua saída. Alguns soldados conseguiram subir a bordo. Outros cairam no rio e tentavam subir nadando ao lado do barco. Inútil. A água desse rio tem uma densidade muito grande e sua ingestão é tóxica: num primeiro momento deixa sonolento, depois totalmente paralisado por alguns dias. A última coisa que a maioria deles pensava era voltar á margem para não se afogarem.


Toda a imprensa estava noticiando o acordo que poderia ser firmado hoje entre as liderança terrestres e kavorianas. Afinal, foram mais de 15 anos de guerra por todos os planetas desta galáxia. Onde houvesse colônias humanas ou não. As baixas foram incríveis dos dois lados.
Difícil alguém esquecer como tudo começou: com ataques de kavorianos á novas bases humanas em alguns países habitáveis. Alguns dizem que esse planeta já era dos kavorianos que possuem um exército bem organizado e ótimas estratégias de guerra, apesar de sua aparência assustadora. Um kavoriano lembra muito um réptil terrestre: escamas, dentes, sangue frio, cauda. Além disso conta, com uma armadura impenetrável onde o elmo se confunde com barbatanas e as adagas com as garras. Conseguem regenerar seus membros em poucos dias. Alguns veteranos dizem que só há um meio de matá-los: acertando sua barriga.
De qualquer maneira, um kavoriano não é uma imagem fácil de se digerir quando se pensa que somos a única forma de vida inteligente do universo. Aliás, só achar essa série de planetas habitáveis gerou muitas questões, que iam desde a teologia até a economia.

O fato é que há um mês a confederação terrestre recebeu uma mensagem dos kavorianos. Uma mensagem secreta, direcionada especialmente ao comandante de uma operação no planeta XB2. A operação foi um fracasso e o comandante veio a falecer uma semana antes. O interessante é que o emissário conhecia muito bem a nossa língua. Ele dizia ser um prisioneiro dos kavorianos e que estes planejavam iniciar uma conversação. Não seria a primeira vez que esses astutos alienígenas tentaram nos enganar com falsas informações: nos primeiros anos da guerra, eles aprenderam a retransmitir as ondas de forma caótica e incessante como forma de atrapalhar a comunicação entre os QGs. Mas foi conferido a patente e o número de série do dito prisioneiro e foi confirmado que se tratava de Ader Rotter, um dos tantos soldados que teria sido morto na operação Monção Tropical no planeta XB2 há um ano atrás.
Semanalmente, Rotter continuou a se corresponder com a central de informações da confederação explicando vagamente as condições de sua captura e dos interesses de seus carcereiros. Eles queriam fazer um acordo.
Depois de um mês de negociações, finalmente a confederação decidiu organizar uma conferência secreta com Ader e seu "amo". Uma conferência tensa, onde tanto naves inimigas como confederadas circundaram a órbita de uma lua longínqua. Inicialmente foi uma teleconferência e somente após 4h de negociações ambos marcaram uma reunião futura onde tratariam do acordo. Essa reunião será feita hoje no planeta A-tkama, um local inóspito, mas que conta com uma pequena base de colonização ainda ativa, apesar de não ter mais colonos.
A tensão era intensa, chegando á aflorar nos tropeços de alguns oficiais e no suor constante de outros. Afinal, podia se esperar de tudo desses animais. As lideranças terrestres esperavam na base. Pontualmente ás 14h (horário da lua de Edna), as naves kavorianas chegaram e com elas Ader e seu senhor. Era uma espécie diferente de kavoriano: sua armadura era mais flexível, tirando a rígida prótese no pescoço que o tornava totalmente ereto, diferente dos demais. Parecia realmente um lagarto enorme com pescoceira. Ader o seguia. Estava trajado com uma enorme manta que parecia feita de algas ou uma espécie de esponja marinha. Estava sorridente.
Ader tomou á frente desse pomposo kavoriano e cumprimentou o comandante da nave e o diplomata - chamava-se Gamal Bieh.Em seguida, esse réptil soltou um guincho, o qual Ader traduziu como "saudações". Gamal, curioso e nervoso, perguntou se seria apropriado perguntar como ele se tornou intérprete desse líder kavoriano.
Depois de contar com o consentimento de seu senhor, Ader começou a contar sua história. Ele era um dos soldados que fugiu da horda de kavorianos mas que foi abandonado pelo barco da expedição. De todos que permaneceram no rio, Ader foi o único que conseguiu recobrar a consciência depois que os kavorianos os tiraram de lá. Foi levado para o que seria o acampamento deles. Pensou que seria devorado, mas ao invés disso o general - o líder kavoriano presente ali - o visitou e tentou se comunicar com ele. Seu objetivo era conseguir informações preciosas dos prisioneiros, mas para isso precisaria saber como interagir com ele. Ader foi perdendo o medo e começou a entender o objetivo do general. Primeiro começaram a se comunicar por figuras: desenhando no chão de terra personagens ou lugares. Em um ano, eles já conseguiam se entender por meio de gestos. Ader nunca conseguiria reproduzir, contudo, a linguagem kavoriana uma vez que as cordas vocais deles são radicalmente diferentes das nossas. O jeito foi improvisarem uma espécie de idioma do meio-termo, onde fonemas humanos e grunhidos reptilianos se unem.
A maioria dos homens naquela sala ainda não conseguia entender como duas espécies tão diferentes conseguiam se entender. Ader quando falava do general - seu nome era Zagbar - demonstrava sempre admiração e respeito. Bieh pensava que tinham feito lavagem cerebral nele, mas tinha medo de perguntar, uma vez que o general poderia entender isso.
-Qual o interesse do general nesse acordo?, perguntou o diplomata.
-General Zagbar deseja selar um acordo de trégua entre nossa nação e a dele. Um acordo de trégua que poderá se tornar o fim da guerra. Sua nação já não aguenta mais a guerra. Por causa dela pararam sua colonização e os alimentos estão escasseando.
Todos estavam desconfiados. Era possível que fosse um embuste. Esse seres são maquiavélicos. Bieh queria saber quais eram as nossas garantias.
-Falar em garantia é algo frágil para os kavorianos. Essa situação de guerra ajudou a criar um grupo de militares, uma verdadeira máfia dentro do império kavoriano que não deseja que a guerra termine tão cedo. Mas, General Zagbar assegura que investigações já estão sendo feitas e se selado o acordo estes senhores da guerra serão detidos.
Ainda assim, tudo parecia nebuloso para Bieh e os homens ali presentes. Ader conseguia perceber isso na feição de seu rosto e no clima de tensão. Zagbar pouco fazia além de observar a discussão sentado ao lado de Ader.
-Eu sei que vocês estão pensando que isso é um engano, mas não é! Nós conhecemos pouco esse povo. Eu sei que eles são uma civilização poderosa e criativa como a nossa. Mas eles tem seus defeitos, assim como nós. Não estou mentindo. Nesses dois anos eu conheci a cultura deles, suas realizações, quase tudo. General Zagbar me ensinou tudo isso. Eu pude perceber que eles não são animais, só são diferentes! Isso não é mentira! Eu não fui lobotomizado!
A reação de Ader era inesperada. Bieh pediu licença para conversar com os oficiais. Zagbar, até então impassível, sussurra algo. Ader explica que ele quer falar e começa a traduzir sua mensagem:
-Entendo a preocupação de vocês, ela é completamente compreensível. Vocês temem que quebremos o acordo e mais pessoas sejam mortas. Eu também pensaria a mesma coisa. Chegamos então á um impasse onde ninguém confia em ninguém. Proponho o seguinte: façamos esse acordo. Se algo acontecer em uma semana devolveremos duas colônias suas. Ader conhece minha cultura, sabe que não mentimos. Peço que pensem nisso: uma vez firmada a trégua, ela pode servir como uma prova de que a paz é possível. Esse pode ser um caminho para acabar com a guerra. Não queremos mais a guerra. Ela nos rebaixa aos nossos instintos mais primitivos, creio que isso também aconteça com vocês. Detestamos essa refinação de nossa animalidade. Na minha cultura, guerra significa três coisas: ataque, defesa e auto-destruição. Acho que já passamos das duas primeiras para última há muito tempo.
A lucidez do líder kavoriano surpreendeu por um minuto os representantes terrestres. Bieh agradeceu o conselho do general e chamou alguns oficiais para discutir a proposta. O inimigo mortal parece se demonstrar muito mais preocupado com a paz que nós, confidencia o diplomata. A responsabilidade é muito grande. Esse pode ser um momento histórico. Não podemos desperdiçar momentos históricos. O acordo é fechado.

Trinta anos depois, a confederação não existe mais. Em compensação, há o que ficou conhecido como Império: a união de várias nações humanas e kavorianas que comercializam entre si produtos produzidos nas mais diferentes colônias pelas galáxias. Algo perto de um dialeto universal foi criado, mas ele é muito flexível, varia para cada região. Pode-se perceber o sotaque aqui. Apesar de volta e meia surgir algum conflito entre comerciantes, kavorianos e colonos, as relações agora são de convivência.
No planeta Manah, sede do Império, existe um instituto muito prestigiado que se dedica a conservar as relações entre seres humanos e kavorianos. É o instituto Ader Rotten, administrado pela família Bieh há anos. Ele é composto pela biblioteca do General Zagbar e os documentos reunidos por Ader enquanto viveu entre os kavorianos. Rotten veio a se tornar embaixador, sendo respeitado pelos kavorianos e tido até como santo por muitos. Entretanto, foi assassinado por matadores á mando dos senhores da guerra que tanto ele como Zagbar tentaram prender. O objetivo desse instituto é aprimorar a diplomacia intergaláctica, seja através de imagens, sons ou gestos.
Dentro do acervo do instituto existe um documento muito interessante onde Rotten descreve "o ato de se relacionar com as pessoas como se embrenhar em uma selva, onde tudo é imprevisível. De certa maneira, a selva onde quase morri sempre me vêem á cabeça quando tento me comunicar com alguém. É o medo de ver alguém numa situação parecida com aquela apenas porque dois povos não conseguem se entender que me faz atuar nesse campo".

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Dia

Acordo.
Leio o jornal e lancho.
Já cumpri minha cota diária de tragédias e calorias.
Vou trabalhar.
Ônibus lotado:
um vislumbre do purgatório.

Trabalho.
Trabalho, trabalho, trabalho.
O café me impede de se tornar um zumbi.
Computadores, papéis, fofocas... não adianta!
Vou deixar meu cérebro no piloto automático.
Chega a hora esperada: a saída.

Ônibus lotado, pra variar.
A casa vazia, meu amor, me espera.
Mas se vinga por ter passado antes no bar:
acaba a luz.
O jantar vai ser comido frio, pelo jeito.
É bom para a anestesiar a fome.

Banho frio, hmm...
Estou quase no sétimo sono.
Do banheiro á cama, sonambulo.
O corredor nunca pareceu tão longo.
O banquinho na frente do meu caminho, no qual bati meu pé, acaba com o momento zen.
Mas não tem problema, é só mandar ele pra puta-que-pariu umas cinco vezes.
Aí, aí está a cama, me chamando para um longo abraço.
O que posso fazer? Recursar o pedido de uma dama?
Durmo.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Pecado

Cidade pequena. O centro da cidade, urbanística e simbolicamente, era a Igreja. O padre era quase o prefeito.
O menino não era daqueles levados, mas fazia parte da turma dos levados. Ele e os outros garotos colocavam bombinhas no rabo dos gatos, tentavam levantar a saia das beatas em dia de procissão Coisas do tipo.
O menino levava bronca da mãe e do padre quando era pego. Ás vezes nem tinha feito nada, mas só por estar junto com os garotos já apanhava. Pior era o castigo dado pelo padre: rezar cem padre-nossos e mil ave-marias ajoelhado no milho. O padre já tinha um pote especial com milho para os garotos. Sumir com esse pote era um dos maiores desejos dos garotos.
Um dia seus amigos estavam todos reunidos em torno do mais atentado da turma. Não estavam correndo, jogando bola de gude ou subindo nas árvores. Então deviam estar fazendo algo muito especial. O menino se aproximou e descobriu. Eram cartões de mulheres peladas. A maioria era morena. O cabeça da turma, aquele que achou o baralho inclusive, ficou logo com a loira e a mais peituda. Mas vendeu o resto do baralho. Vendeu não, trocou com os outros por alguma coisa. O menino conseguiu uma por um pote de geléia de jabuticaba da sua mãe. Era uma morena com longos cílios, encostada em uma coluna com seus braços por cima da cabeça deixando seus seios assim completamente á vontade.
Enquanto ninguém via, ele pegava o cartão e admirava a sua morena. Ficava pensando se todas as mulheres eram assim por debaixo do vestido. Passava alguém na rua, escondia. O menino passou a olhar as beatas de outro jeito e passou olhar a menina do outro lado da rua de outro jeito. Era morena também, não tinha os cílios compridos, mas tinha olhos grandes. Aliás, parecia muito com a sua morena. Talvez fosse parente dela.
Apesar do sermão do padre dessa semana ser direcionado ás roupas “ousadas” de uma moça que morava perto do córrego, parecia ter sido feito para o menino. O padre falava de revelar o corpo, “colocar nosso corpo á mostra para todos verem como em uma banca de peixes”. Isso era pecado! O menino não sabia o que era pecado, mas sabia quais eram eles: avareza, ira, soberba, preguiça, gula, inveja e luxúria. Na cabeça do menino, pecado era aquilo que as pessoas fazem de ruim e escondem. O que ele e os garotos faziam era diferente, era brincadeira. Mas andar com poucas roupas ou nenhuma era pecado, “pecado de quem faz e de quem vê”. A morena então estava pecando. E o menino também! “Vocês sabem o destino dos pecadores? O caldeirão do inferno!Sabem como é o caldeirão do inferno? Ah, meus amigos não queiram saber! Um imenso caldeirão cheio de lodo e óleo fervente, onde estão todos os pecadores sendo puxados pelos pés por demônios no seu fundo que a cada dia mordem mais e mais seus membros. E isso por toda a eternidade!” O menino, como a maioria dos garotos na Igreja, estava quase chorando.
No mesmo dia quando chegou em casa, resolveu dar um jeito na sua morena. Rasgou a carta em mil pedaços, até não poder mais ver qualquer pedaço do corpo da mulher. Jogou tudo num buraco que havia no canto da parede. Na falta de milho, rezou inúmeros padre-nossos ajoelhado em suas bolinhas de gude. No dia seguinte, olhou bem o buraco para ter certeza de que ali estava a prova do crime. Depois da aula foi direto á Igreja se confessar com o padre. O padre pediu que fosse breve, mas já estava desconfiado. O menino contou sobre a morena. O padre queria saber como ele conseguiu ela, o menino contou. A reação do sacerdote foi colérica. O menino já estava chorando antes de terminar a confissão; não queria ficar no caldeirão do inferno. O padre passou a pena: 100 ave-marias e 110 padre-nossos ajoelhado no milho. O menino queria fazer ali mesmo, o padre não deixou. Disse que nesse caso seria em casa, no seu quarto. O menino foi, sabendo que ele e seus amigos ficariam com a bunda assada de tanta chinelada.
Depois de cumprir seu castigo, ficou assustado novamente, mas não saiu de casa. Estava esperando sua mãe chegar com aquele chinelo na mão. Depois de um tempo ela chegou, era tarde. Chegou dizendo que uma amiga sua, mãe de um de seus colegas, descobrira com seu filho cartas de baralho de mulher pelada. O garoto disse que tinha roubado do gabinete do padre. Perguntou se o menino sabia de alguma coisa e ele, confuso, negou, afinal já tinha fugido do caldeirão do inferno e mentira não é um pecado capital.
O padre também negou, mas o caso ficou na boca de todos por muito tempo. Algumas beatas se afastaram do padre depois disso e sempre que passavam por ele olhavam com medo. O menino olhava para o padre como se fosse colega de mais uma de suas artes e o padre olhava para ele como se não soubesse de nada e, por vezes, de quem pedia para não dizer nada. Numa cidade que se comunicava mais por olhares do que por palavras, o olhar do menino para sua coleguinha morena desde então também denunciava algo. Algo que com o tempo se consumou. Se é pecado ou não, o menino não sabia, mas que valia a pena enfrentar o caldeirão do inferno por isso, valia.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Como era verde o meu campo

-Dia brabo, em!
Comentou o senhor ao lado de Aldano, mas ele fingiu não ter ouvido nada. O dia estava ruim mesmo, esse comentário é mais do que óbvio. Afinal, qual dia em um campo de trabalho não é ruim?
Aldano andou á frente, em direção á seu colega Braz. Gostava dele; não era um cara brilhante, mas era um bom ouvinte e Aldano tinha muito o que falar. Tirando isso tinha um otimismo e um entusiasmo infernal.
-E aí, cara? Tudo bem? O sol hoje tá brabo, né?
Fingiu que não ouviu a última parte da fala do colega e começou a falar como se já estivesse impaciente.
-Tá, tá bem sim, Braz. Olha, você pensou naquilo que te disse ontem?
-O quê?
-Aquilo, cara...
Olhava para os lados. Não era fácil alguém se esconder na plantação; a vegetação era rasteira e as plantas maiores eram muito finas e frágeis. A única pessoa por perto era o velho que comentou sobre o dia lá atrás. É um velho, mas vai que ele tem boa audição?
-Aquilo!!
Braz se lembrou da conversa de ontem na cela.
-Ah, aquilo! Sei, sei... Cara, eu acho isso meio perigoso, eu te disse...
O velho se afastara, fora arar a terra no final da canaleta.
-Você prefere ficar aqui?
Braz vai um pouco adiante para colher uma fruta que parece ter nascido antes do esperado, envergando a planta até o chão.
-Mas, pensa bem: você sai daqui, vai viver lá fora como? O mundo muito, cara! Aqui pelo menos a gente tem comida, tem água, tem casa...
Aldano interrompe bruscamente.
-Mas aqui não tem liberdade! Aqui você não pode fazer mais nada, aonde eu quero ir não posso, tenho que ficar aqui arando essas plantas da porra nesse sol fodido! Você acha isso legal?
Braz fica em silêncio; não tem resposta. Aldano se acalma e conta mais sobre seu plano.
-Amanhã, eu vou fazer o esquema: vou me jogar no meio do sorgo e esperar a debulhadora me pegar...
-Cara, isso é perigoso..
-Perigoso nada! Antes de cair no processador eu me agarro na tubulação e espero eles guardarem a debulhadora na garagem. Aí eu saio. Daí em diante é fácil. Ninguém vigia a garagem, sair de lá vai ser mole. Eu preciso saber se você vem comigo, porque aí você vai ter que ser rápido; se não agarrar antes de chegar ao processador você vira carne moída.
-Num sei não...
-Deixa de ser cagão, cara!
Aldano maneira a voz. O velho, lá longe, no fim da canaleta, olha, mas não se assusta; ele conhece o caráter brigão de Aldano, na certa deve estar brigando com o Braz por ter jogado água no seu sapato.
-To te convidando, to te oferecendo a liberdade! Pensa melhor.
Braz olha para o chão. Não está mais animado como antes, isso é claro. O cara é conformista demais, pensa Aldano.
-Tá...
Responde o seu colega depois de um minuto de silêncio, enquanto arranca da canaleta uma enorme lesma atraída pela água de onde saem as plantas. Logo em seguida, joga um elemento higienizador em pó no lugar. Aldano se anima.
-É, pensa um pouco e me dá a resposta na janta, viu? Viu?
-Sim.
Braz não quer ir, mas não saber dizer não. Aldano já se zanga com seu entusiasmo aqui, imagine então com uma declaração aberta de que não quer sair do campo de trabalho. De alguma forma, Braz gosta de estar aqui. Gosta de trabalhar. Ele não pensa no que há lá fora, porque acha que não resta mais nada para ele lá. Não havia muito antes. Aqui não, ele tem um trabalho, ele tem algo para se ocupar. Ele faz bem feito, ele é reconhecido - já foi cinco vezes seguidas o trabalhador do mês, ganhando de presente cinco medalhas de zinco. Além disso, ele está trabalhando por algo maior. Se não fosse pelos alimentos produzidos pelos prisioneiros aqui no campo o país não teria atravessado a crise de fome. As frutas, legumes, peixes e aves que Braz colhe e trata salvou milhares de pessoas e está deixando elas mais saudáveis a cada dia.
Um veículo de metal de forma arredondado que move-se como uma carroça, com um guarda em seu dorso, passa perto da canaleta. Aldano se afasta, mas lentamente, como se estivesse olhando a água das outras plantas. Antes de ir ele dá um tapa nas costas do amigo e diz:
-Te vejo no jantar então!
O dia demorou a passar. Geralmente passa rápido para Braz, sempre ocupado com o pavilhão dos peixes ou com as plantações. Mas a proposta de Aldano o fez pensar. Pensar demais. Braz olhava as canaletas, os tanques dos peixes, as gaiolas das galinhas. Um olhar melancólico. Um olhar de quem se despede. Braz não sabe dizer não, ainda mais para seu amigo - o único -, então é certo que irá fugir amanhã, ou pelo menos tentar.
Jantar. Nunca ele temeu tanto assim a hora do jantar. Depois de tomar o habitual banho, Braz seguia com os outros prisioneiros para o refeitório. Lá podia-se comer parcela do que se produzia ali: frango com vegetais, peixe com ervas, coisas do tipo. Nos primeiros tempos, tudo o que havia de mais podre era servido aqui. Agora não.
Braz vai para sua habitual mesa. Aldano está lá esperando. Está com o nariz roxo, na certa brigou com alguém de novo.
-Então?
Aldano espera pelo sim e o obtém. Um sim nervoso, mas Aldano nem se importa.
-É isso aí, cara! Assim que se fala!
Braz não parece muito entusiasmado, mas recebe um tapão nas costas.
-Quando estivermos lá fora eu vou te levar pra conhecer minha cidade. Não que seja bonita, sabe, mas lá tem um dos melhores puteiros da região. Eu vou te apresentar alguém... Dona Jezebel! Ahahah.
Aldano ria, enquanto mastiga um punhado de arroz integral e milho. Braz apenas observava os grãos de milho que saiam de sua boca caírem na mesa ou no chão.
-Depois vamos ver o mar, cara. Você não sabe quanta falta eu sinto do mar, cara! Você já viu o mar?
-Não...
-Você vai ver, vai se impressionar. É como uma lagoa grande, só que mais escura e mais agitada. Você já viu uma lagoa, né?
-Não...
-Puta merda! Aonde você vivia? Não ter mar dá pra entender, mas não ter lagoa...
Enquanto falava Braz já sofria o desgosto de enfrentar o mundo de novo. Mas dessa vez, pelo menos, ele estaria com o amigo. Aldano, por sua vez, estava já sentindo o sabor da liberdade. Sorria, entre uma garfada e outra. Os presos ao lado estavam desconfiados; esse homem nunca ri! Aldano gostava de Braz. O via como um cachorro ou uma criança. Na cidade, lhe ensinaria o que é viver realmente.
Braz percebia pela primeira vez que a liberdade vinha antes de sua amizade. Isso o deu mais medo. Afinal, Aldano e ele fogem, ficam livres e seu amigo vai querer se esbaldar, esquecendo fácil fácil o companheiro. Mas já estava feito, eles fugiriam amanhã.
A noite demorou a passar para os dois: um, por ansiedade, outro, por medo. Chegou a hora: levantaram-se, vestiram seus uniformes cinzas e foram para o trabalho. Braz carrega consigo, debaixo do uniforme suas preciosas medalhas de zinco. Entraram na fila para a plantação de sorgo. Eles e os demais trabalhadores foram levados por um imenso caminhão achatado que apitava até a plantação. Lá, quatro debulhadoras os esperavam. Era difícil lidar com essa máquina. É necessário que dois homens fiquem na caldeira, enquanto dois controlam na frente seus movimentos. Há o supervisor que vigia o processo todo, passando por todo canto da enorme máquina. Aldano e Braz não eram para estar aqui, mas como há sempre mudanças de última hora o supervisor demorará a perceber isso e até os inspetores descobrirem o erro e chegarem até essa plantação eles já estarão dentro da máquina.
Aldano seguido por seu fiel colega se aproximam da seção de armazenamento. Ambos espiam. Ninguém por perto. Aldano se joga no mar de sorgo. Braz hesita por um instante, mas pula. Rapidamente, se escondem no cereal. Respirar está difícil, mas dá pra aguentar.
A plataforma onde estão começa a inclinar, jogando todo o seu conteúdo em um enorme buraco. Os fugitivos (ou candidatos á fugitivos) descem pelo encanamento da máquina como se fosse um tobogã. Aldano tenta achar alguma fresta ou algum vão na tubulação onde possa se agarrar. Conforme avançam os vão se tornam mais salientes. Aldano se segura em um deles. Braz ainda está tentando. A cabeça está a mil: cidade, puteiro, polícia, etc. Mas a mão agarra alguma coisa. O sorgo ainda está caindo. Já se pode ouvir o processador amassando os grãos e até sentir o seu calor. O vento ainda circula na tubulação. Conseguimos, diz Aldano. Braz só consegue ver na escuridão as luzes da cidade, aquele inferno. Um rapaz sozinho, cheio de fome. Quando sair dessa tubulação, Braz estará sozinho de novo. Não é possível! Não pode acontecer, pensa. Mas agora é tarde para voltar. Talvez não, pensa. Ele ainda pode continuar no campo, ele pode conseguir não sair do campo. É simples. É só seguir a tubulação.
-BRAAZ!...
O sorriso vira grito: seu fiel escudeiro escorregara para a morte. Escorregou não, deve ter se soltado. O merdinha se soltou, pensou Aldano, mas não no habitual tom de reprovação. Era mais um lamento. Não ouviu nem gritos de agonia, o idiota devia estar sorrindo. Na esteira, o laranja dos grãos tornava-se vermelho, uma pasta vermelha. A única coisa que se podia distinguir dessa pasta eram pequenos objetos luminosos. Medalhas de zinco.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Subterrâneos

Quando era criança acreditava que as paredes eram ocas e ali dentro habitavam pequenas pessoas, pequenos seres. Imaginava uma multidão de cosinhas andando lá dentro, como se fosse o centro de uma cidade.
Á noite, esperando o sono chegar, ás vezes eu olhava para as fendas da parede e podia ver seus rostos, espiando, vendo se não tinha ninguém acordado. Eu fingia que estava dormindo e esperava eles saírem para ver o que iam fazer, mas nunca saíram, acho que eram desconfiados demais.
O gato da minha prima não gostava de ficar no meu quarto, ficava eriçado. Acho que ele sentia os bichinhos da parede, mas era só no meu quarto. Ou seja, será que eles só viviam nas paredes do meu quarto? Nunca descobri ao certo. Eu já pensei uma vez em pegar um martelo e quebrar uma parte da parede para ver se achava eles, mas ficava sempre com medo de matar eles com isso. Então nunca fiz, mas sempre suspeitava.
A idéia nunca me desapareceu assim totalmente. Hoje não penso que em todas as paredes existam criaturinhas, mas pelo menos a daquele meu quarto tinha sim. Disso tenho quase certeza. Quando fui da Rosacruz uma vez tentei me comunicar com eles, telepaticamente. Fiquei umas horas parado em frente á parede tentando extrair algo dela. Cansado, depois de um tempo, coloquei a mão sobre ela e senti ela pulsando, como se tivesse cheia de vida. Desde então minha certeza sobre sua existência é patente.
Minha amiga um dia me veio com um livro proibido da Biblioteca do Exército, o irmão dela era militar, dizendo que a terra era oca, os maias haviam escapado para o centro da terra e ali viviam até hoje. Um colega meu achou ridículo isso, eu não. Ora, se existem gente na minha parede porque não existiriam pessoas debaixo da terra?

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Aposentadoria

Corria pelo mato, olhando a cada passo desordenado apra trás, tentando ver se o rastreador continuava atrás dele. Estava muito escuro, só que via eram sombras, não tinha certeza se aquela ali era uma árvore ou o caçador. Na dúvida, continuava correr, com mais força ainda.
Um piso em falso, caiu do barranco. Desesperado tentou encontrar algum canto onde pudesse se esconder pelo menos. Tateando o chão se cortara com um caco de vidro ou pedaço de madeira, não sabe. É o fim: ele vai sentir o cheiro.
Sem outra idéia, deita-se no chão e fica imóvel com a esperança de que o rastreador não o veja. Esconde a mão ferida debaixo do corpo. Olha pra cima, para o alto do barranco, consegue ver perfeitamente o seu topo. Um chapéu, vê um chapéu aparecer. Lentamente a figura se mostra. Com uma capa um pouco esburacada nas pontas, o rastreador pára e observar a noite. O homem pode ver sua silhueta perfeitamente; sua frio. Ele coloca a mão no rosto, aperta alguma coisa, deve ser seu potente nariz de mentira. Ninguém sabe como ele funciona, só sabe que quando ele coloca essa coisa para funcionar sente o cheiro de uma paca a dois morros de distância.Eles são conhecidos por duas coisas: seu olfato e sua impiedade.
O homem sua, tenta diminuir o som de sua respiração. O rastreador meneia a cabeça. Olha para o fundo do barranco: pronto, foi achado.
Não há mais o que fazer. O impulso é fugir e é o que o homem faz. Levanta e dispara.O estampido seco, o homem cai no chão. Urra de dor, tenta levantar, mas o tiro foi bem nas costas. Não consegue. Rasteja um pouco. Ouve o som das botas do rastreador: estão ficando próximas. Mas desiste, não conseguirá ir muito longe. Vira-se e apela ao caçador:
-Por favor, senhor! Não me leve de volta... por favor (gagueja) me mata aqui!
O rastreador pega as mãos trêmulas do homem e as amarra. O levanta e coloca sobre as costas. O homem continua implorando, entre um grito de dor e outro. Chegam até á carroça metálica do rastreador. Joga o homem na caçamba e liga o motor, que mais parece uma velha tossindo.
-Me mata, senhor, por favor! O barão vai me maltratar por uns meses, ninguém merece morte loga do jeito que ele faz com os fugidos, ninguém merece... O senhor num sabe o que é aquilo!
A voz metálica finalmente responde ás súplicas:
-Eu só pego as pessoas, não mato.
-Mas, senhor, me mata, pelo amor de Deus! Eu te do tudo o que eu tenho, juro! Debaixo da minha cama, pode procurar, tem uma caixa cheio de conchas que eu guardei nesses anos todos. É sua! Só me mata antes!
O rastreador continua indiferente.
-Ninguém merece aquilo... meus parentes tudo morreram assim, depois de semanas na sala do matadouro, e a gente ouvindo eles gritar por nós... se tivessem matado eles antes não teriam sofrido tanto... por favor, senhor, me mata!
O rastreador começa a se incomodar com a ladainha.
-Se o senhor pudesse fazer uma pessoa que goste sofrer menos não faria? Eu sei que o senhor não me conhece, mas o que eu peço é pouco. O senhor diz que acertou errado e eu morri e não leva bronca do barão, é isso!
Silêncio.
-Por favor, senhor, eu não aguento mais tanto sofrimento, não aguento mais viver naquelas minas, ver minha gente sendo judiada. Se o senhor visse todo dia o que eu vejo também ia querer fugir de lá, mesmo que fosse morto.
O rastreador finalmente fala:
-Então porque não se matou?
-Porque eu tinha esperança de sair vivo de lá, mas agora, senhor... se o que me resta é a morte eu quero a morte. Tudo pra não voltar pra lá.
O rastreador pára a carroça de metal. Sai da frente e vai até a caçamba. Olha por uns instantes o pobre diabo. Pega a arma. Antes de se ouvir o tiro, o condenado diz baixinho, como um alívio:
-Muito obrigado...
O rastreador volta para a frente da carroça e liga de novo a máquina. Ainda não entendeu porque fez isso. Talvez seja o cansaço, afinal são mais de vinte anos ou mais fazendo isso. Quantos já não pediram o mesmo. É o cansaço. Parece que isso nunca vai acabar. Bem, talvez um dia isso acabe...


Um homem corre pela casa, esbarra na mesa da cozinha, deixa cair o vaso de flores que a enfeitava. Atravessa o corredor quase tropeçando. Entra em um quarto. Revira o armário, tenta achar a arma que costuma guardar aqui. Não acha. Será que ele a pegou? Vê a janela, tenta abrí-la. O som da porta fechando. Olha para trás e lá está a figura obscura, de chapéu, arma em punho e a capa toda esburacada (um pedaço ficou preso na porta). Desiste de arrombar a janela. tenta ser calmo e encarar o perigo.
-Mas o que você quer? Te pagaram para me pegar, né? Diga, quem pagou? Quanto foi? Você sabe que eu posso dar muito mais pra você não me pegar!
A voz metálica responde:
-Seu barão, não vim aqui pra te pegar não... vim aqui pra te matar.
O rosto do homem empalidece, está petrificado.
-Mas quem...
-Não tem ninguém não, seu barão. Tô fazendo isso por minha conta... vim pedir minha aposentadoria.
O tiro atravessa a janela, um corpo cai ao chão e outro sai pela porta, sereno... finalmente.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Antióquia

Ouço o som dos automóveis lá fora, cruzando os ares. Alguns totalmente irritantes, com seus pigarros intensos. Mas não me afetam muito, continuo comendo meu melão. De onde vim não tinham melões como esse. Não tenho certeza se é transgênico ou orgânico, porque não sei se os que comia era orgânicos ou transgênicos. Mas o que importa? está delicioso e pronto.
Senta um casal japonês na mesa á minha frente. Eles falam muito alto, mas finjo que não estou nem aí. Aliás, é impressionante a quantidade de asiáticos aqui; andando pelas ruas, dez em cada oito pessoas são chineses, coreanos, japoneses ou de qualquer outro país onde as pessoas tem olhos puxados. Maurice, meu amigo, disse que tinha a ver com a queda dos Tigres Asiáticos, a maioria deles vieram para cá então, onde havia mais oportunidade. É... quando a situação aperta não há nacionalismo que aguente.
Quem sou eu para falar deles. Eu mesmo saí de meu confortável, mas paupérrimo país para viver em Antióquia. Não que eu gostasse muito de meu país, mas era meu país, eu nasci ali. Pensando bem, acho que isso nem importa mais. Afinal, é apenas uma pedaço da crosta terrestre com pessoas em cima. De qualquer maneira, mesmo não gostando tanto assim de minha terra natal, decididamente não gosto de Antióquia também. É uma cidade enorme onde tudo parece ruína, quando você passeia pelas ruas é inevitável sentir um cheiro de óleo queimado e peixe, as pessoas só estão interessadas no seu dinheiro, dê você á eles voluntária ou involuntariamente. Que beleza há aí? Antióquia, ao meu ver, é o fim do poço da Humanidade.
E, veja bem, até uns trinta anos atrás era um monte de casas de alvenaria se diluindo á cada chuva ácida de verão. Se não fosse por esse enorme lixão no seu subsolo isso aqui continuaria sendo um deserto de veraneio. Antióquia... o maior ferro-velho da Historia.
Acabou o melão, que pena! Bem, pelo menos os japoneses pararam de berrar um para o outro. Odeio quando a pessoa termina de comer o que tem que comer e fica na mesa do restaurante sem fazer nada, olhando para o ponto cego das coisas, mas é exatamente o que estou fazendo agora. Se estivesse com a boca aberta seria o mesmo que ver um jacaré na beira do rio depois do almoço. É melhor me levantar e fazer algo, chega de tanta letargia.
Atrás da minha mesa está uma enorme janela, onde vão os casais de namorados (endinheirados, é claro) trocar beijos e admirar essa bela paisagem que é Antióquia. Mesmo com sua cor onipresente de ferrugem, a cidade tem um certo charme quando vista assim. Talvez seja algum efeito da janela, sei lá. A cada dia os edifícios crescem mais um metro e não é possível mais ver suas bases. A nuvens atrapalham a visão. Na realidade não são nuvens de verdade, mas gases tóxicos expelidos pelas fábricas e pelo lixo encrustado na antiga superfície da cidade. Vez ou outra algum maluco louco por adrenalina tenta descer até lá e voltar sem ficar inconsciente e acaba intoxicado.
Estranho... eu não tinha visto aquele prédio amarelo ali. Não é uma fábrica, deve ser mais um restaurante ou então um bordel. O alarme de meu relógio dispara, está na hora, tenho que subir e fechar o negócio. É um poço de chorume, estamos tentando vender para dois sheiks. Um já concordou com a nossa divisão nos lucros o outro ainda está tentando pechinchar. Tomara que ele tenha desistido se não vou passar mais uma semana nesse hotel. Se isso acontecer, pelo menos tenho os melões para me consolar.

domingo, 1 de agosto de 2010

Da Iconoclastia

O Dr. Bento Aranha Castro levantara de sua cadeira e agora se dirigia a seu destino, o púlpito, onde falaria seu primeiro discurso como membro da Academia Brasílica de Ciências.
Colocara o calhamaço de folhas sobre ele, retira o pincenê e o repousa sobre a pilha de folhas. Um pigarro. Dois pigarro. Olha para a frente, avista aquele mar de acadêmicos, cientistas, todos encasacados, com imponentes cavanhaques. Inicia o discurso:
-Senhores, tenho a alegria de participar dessa academia que tem sido um dos maiores orgulhos para o desenvolvimento de nosso país. Quem me conhece sabe que não estou exagerando nos elogios, é verdade. Se não fosse por essa academia, criação de nosso prodigioso Imperador,não teríamos conhecido a Ciência no Brasil, a não ser pelos cientistas europeus que esporadicamente nos visitam. Sem ela nunca teríamos recriados portos modernos ou mesmo catalogado todas as espécimes animais e vegetais da região Amazônica. Sem ela não seríamos a potência que somos na América e no mundo.
Mas, senhores, eu me pergunto se conhecemos realmente a Ciência. Trabalhando nas escolas, ministrando aulas, eu vejo cada vez mais que não ensinamos Ciência, mas apenas repetindo-a, como se fossemos papagaios. Nossos melhores alunos são aqueles que nos dizem que o som não se propaga no vácuo e não aqueles que entendem porque o som não se propaga no vácuo.

Pausa, o discurso tem provocado já reações razoáveis nos rostos do demais membros da academia. Dr. Castro bebe o copo de água localizado perto de seu calhamaço. Novamente toma a palavra e continua o discurso.
-Senhores, o que quero dizer é que não fazemos mais Ciência, mas uma religião qualquer que se diz ser Ciência. Vejam bem, o conhecimento que conquistamos através dos anos hoje é adotado como dogma. Eu digo isso porque trabalho com a educação e na educação isso é muito claro. Os alunos tornam-se profissionais que não compreendem a Ciência, apenas a reproduz como um autômato. E para se tornar um "cientista" eles vêem que é preciso perder sua capacidade criativa. Ora, que Ciência é essa que nos castra a imaginação, combustível de nossos insights, e a compreensão, motivo primeiro de nos aventurarmos pelo mundo do conhecimento científico.
Se Kant disse que para ser um ser racional é necessário compreensão e sensibilidade, nós, senhores, não somos nenhum pouco racionais. Em matéria de racionalidade estamos na Idade da Pedra, por isso, conclamos a todos aqui a buscar dentro de nós nosso espírito iconoclasta, pois, só a partir da destruição desta catedral científica que criamos é que estaremos realmente á praticar a Ciência. Obrigado.
O Dr. Castro pega o calhamaço e o pincenê e retira-se do púlpito. A exigente platéia, após o susto inicial - na verdade, mais para uma cutucada na ferida que um susto - , leva alguns minutos para digerir a crítica e algumas tímidas palmas brotam da multidão de doutores. Dr. Castro não se intimida, já esperava essa reação. Ali estava ele, um iconoclasta sozinho tentando derrubar com um estilingue uma enorme catedral cheia de sacerdotes arrogantes e encasacados.

A Dança das Borboletas

A cidade estava tranquila como sempre é aos domingos. Entenda-se aqui tranquila como “sem engarrafamento”. Mesmo o mais desavisado observador conseguirá perceber que tudo está igual, tirando, é claro, o engarrafamento. Os outodoors continuam lá, as pixações, as bicicletas, os motoqueiros “ligeirinhos”, os botecos, as lojas, os mendigos. Está tudo do mesmo jeito de sempre. No entanto, não está.

Á duas semanas instalaram aquele que promete ser a salvação da cidade: o temporizador. Foram colocadas torres ao redor de todo o perímetro urbano. Discretas, mas estão lá; emitindo ondas eletromagnéticas. Sua função é bem simples: afastar toda possível frente fria perigosa da cidade, impedindo enchentes.

É uma tecnologia que já vinha sendo desenvolvida nos EUA, desde o furacão Katrina. Adotaram o sistema nessa cidade graças aos estragos das últimas enchentes. A cidade demorou quase um ano para se recuperar. Todos ficaram traumatizados de certo modo com o ocorrido. Mesmo com a promessa de bom tempo e nenhuma enchente a população ainda anda desconfiada. Mesmo obtendo sucesso nas cidades do Sul do EUA, todos estão meio céticos quanto ao seu poder, até o governo. Desconfiança compreensível, de fato, até típica de um povo que cisma muito fácil com a modernidade, mas depois de um tempo já se alimenta dela.

O fato é que até agora não ocorreu nenhum temporal daqueles. Na realidade, esse mês de outubro está muito seco até, nenhuma chuvinha. Que eu saiba o propósito do temporizador não é expulsar as chuvas, mas só os grandes temporais.

O sol está implacável, como sempre. Os carros continuam passando nas ruas. Tudo normal para um fim de semana; nada explodiu, não brotou um tentáculo em ninguém. Parece que o temporizador nem existe. No primeiro final de semana todos estavam apreensíveis, a cidade estava meio tensa. Mas agora, tudo tranquilo. Tranquilo demais, chega a dar tédio, o tédio de sempre, o tédio dos domingos.

Uma borboleta pousa no parapeito da janela. Azul, não pára de bater as asas. Outra borboleta. Três, quatro, seis borboletas. Milhares de borboletas! Parece que jogaram toneladas de papel picado sobre a cidade. Um enxame de borboletas chegando pela avenida, debruçando pela janela dá pra ver que elas vem do interior, pelo menos a maioria.

Há alguns dias eu percebi que estava vendo borboletas pela cidade, mas parece que de repente elas decidiram invadir a cidade.Elas se espalham pelas ruas. A maioria fica voando pelos prédios. Várias entraram pela janela. Tive que fechar imediatamente todas as janelas da casa. Elas entraram e ficaram dançando sobre a estante, ao redor da lâmpada – mesmo ela estando apagada. Depois foram caindo no chão, agonizando-se. Tudo aquilo era completamente surreal. Logo o chão do apartamento estava coberto de borboletas.

Não foi só o chão do apartamento que ficou coberto delas, as ruas da cidade também. Mesmo com muitas ainda voando freneticamente pelo céu, as ruas estavam cheias de asinhas batendo, desorientadas, formando um tapete vivo um pouco macabro.

Ninguém entendeu nada. Depois de duas horas não haviam mais borboletas dançando no céu, nas casas e lojas que invadiram. Tirando uma ou outra ainda agonizando, todas estavam estateladas no chão. As pessoas saiam na rua, olhavam para cima, procurando outra nuvem de borboletas loucas. Um senhor empurrava com sua vassoura pra fora de sua varanda um volumoso cardume desses insetinhos. Alguns curiosos examinavam seus pequenos corpos, tentando entender o que tinha acontecido, procurando pelo menos uma pista. Era borboletas de todo tipo, de todas as cores, a cor predominante no entanto era o rosa. Olhar as ruas era como olhar o solo coberto pelas flores de jambo. Seria muito bonito se não fosse macabro.

Depois de dois dias saiu a nota oficial: mudança no clima, o aquecimento global estava interferindo na orientação migratória das borboletas. O fato, na verdade, é que as ondas do temporizador não afastam só tempestades como atraem borboletas. Aquele enxame monstruoso de borboletas foi chamado para a cidade, e depois de uma viagem tão longa, exaustas e desorientadas, morreriam todas elas aqui, num triste espetáculo. Não demorou muito para associarem a dança das borboletas com o temporizador. Muitos protestos foram feitos no decorrer da semana, mas com o tempo eles foram diminuindo. Quando o chefe do programa disse que a única solução seria desligar o temporizador e deixar a cidade livre para as chuvas de novo, a maioria da população concordou que borboletas não valiam tanto. Hoje, “danças de borboletas” são comuns, já aconteceram cinco, e cada vez menos enxames aparecem. Esses mini-massacres não espantam mais ninguém, só aporrinham. Eu mesmo maldizo esses insetinhos quando interditam as avenidas e me atrasando para o trabalho por causa de enxurradas de borboletas. A verdade é que esse é o preço da segurança. A “dança das borboletas” é um efeito colateral para se construir uma vida urbana estável, sabe? Mas ás vezes lamento isso. O mundo ficou mais seguro, mas também menos colorido.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A Visita

A campainha toca.
-Calma, já vou! Já vou!
A velha senhora abre a porta e vê uma silhueta á sua frente.
-Olha, me desculpe se eu te conhecer e não te reconhecer agora,bem. É que eu fiquei de trocar as lentes dos óculos á dois meses e to enxergando agora tudo embassado, sabe? Mas quem é você mesmo?
A Morte não sabe o que responder. Ora se disser seu verdadeiro nome é capaz de que ela feche a porta e se esconda dificultando seu trabalho mais ainda.
-Bem, eu sou...
-Ah, é o Ademar, né? O menino aí da portaria, do turno da noite, né? Agora que eu vi, você sempre costuma andar com essas roupas escuras. Me desculpa, meu bem, por não ter te reconhecido, viu?
-Não...
-Já sei, você veio buscar o panetone, né? O Arlindo me disse que você ficou de pegar e num pegou. Mas eu guardei, viu. Tá lá na geladeira! Entra aí!
A Morte, diante do convite, recusa veemente:
-Não, não!
-Que isso, entra aí, meu filho! Eu tava preparando mesmo o café. Senta aí e toma um pouco. Entra vamos!
-É que eu tenho que fazer mais coisas...
-E vai ficar aí de pé na frente da porta, que nada! Não precisa ter medo, eu sou só uma velhinha zureta. Entra aí.
E a senhora puxa pela mão a relutante visita para dentro de seu apartamento.
-Olha só não repara na bagunça,viu! Nossa, você tá frio, meu filho! Tem pressão alta? Ah, senta aí que vou trazer o café e o pão.
Assim que a senhora vai para a cozinha, a Morte solta um suspiro de cansaço, daqueles que se solta quando se prevê o trabalho duro pela frente. A Morte não gosta de criar muita intimidade com suas vítimas, isso acaba interferindo no trabalho. Depois você fica com pena e não consegue ceifar.Pensando melhor, ela acha que seria melhor acabar com tudo de uma vez. Se dirige para a cozinha, a senhora está na pia passando o café do cuador para a garrafa térmica, de costas. É o momento perfeito. Prepara para tocá-la e assim levá-la, quando a senhora subitamente vira.
-Nossa! Ah, você taí! Olha, menino, tá aqui o café. Você prefere puro ou pingado?
A Morte diante da solicitude da velha senhora desiste do plano.
-Puro.
-Eu também gosto de puro. Não é que eu não goste de pingado, é porque pingado já não paece café, pra mim parece mais é achocolatado, sabe? Senta aí na mesa que eu vou trazer o pão. Você gosta de pão de milho?
-É... Sim...
-Ih, meu filho, então me desculpa, só tenho pão francês.
-Não tem problema.
Enquanto conversam a senhora colocaum pano de prato sobre a mesa e o saco com pão sobre ele.
-Vou buscar agora o requeijão e o presunto, tá, meu filho?
-Tá certo...
A Morte, meio conformada, pega o copo com café e dá uma golada. Chega a senhora com o requeijão, o presunto e a faca.
-E tá muito forte?
-Não, tá bom.
-Se num tiver é só falar, eu faço outro.
-Não, não!
-Não é trabalho nenhum! Eu faço rapidinho. Eu até gosto, sabe, porque assim eu fico ocupada. O problema, meu filho, é quando você não tem nada pra fazer. Cabeça vazia, oficina do diabo. Já ouviu esse ditado?
-Sim...
A senhora corta seu pão ao meio e passa a faca parao convidado. Este pega lentamente seu pão e o corta. Depois de colocar presunto do seu pão a senhora lhe empurra uma fatia.
-Não quer colocar presunto aí?
-Não...
-Você não gosta de presunto?
-Gosto, mas vou colocar só requeijão...
-Você é que nem meu filho, ele não suporta misturar as coisas sabe? Quando eu colocava inhame e feijão e arroz pra ele, ao invés dele amassar o inhame, sabe, e comer junto com o feijão, ele separava num canto o inhame e comia o feijão e arroz primeiro pra depois comer o inhame.
Agora um silêncio. Ambos estão mastigando seu pão. A senhora come seu pão, como se tivesse fome, enquanto sua visita o devora lentamente, entre um golada e outra de café. Após terminar seu pão a Morte recolhe as migalhas que caíram para fora do pano e coloca num canto dele.
-Meu marido fazia isso.
-O quê?
-Ele fazia isso, meu marido. Depois que comia o pão ele pegava as migalhas e colocava no pano, depois ele pegava o pano e balançava ele fora de casa, pra cair as migalhas. Eel tinha uma criação de galinhas, aí quando ele fazia isso as galinhas já vinham tudo comer os pedaçinhos de pão.
A Morte coloca as mão sobre as pernas como se não fosse mais comer nada, a senhora está terminando o segundo pão agora.
-Eu gosto de pão assim quentinho. Vou lá na padaria cedo pra pegar os primeiros. Pão que fica muito tempo fora do forno fica meio duro, borrachudo, já percebeu? Eu não gosto de pão borrachudo. Ainda mais porque eu já não tenho muitos dentes, imagina eu perder mais. Ahah...
A ligeira gargalhada da senhora encontra companhia no também curto pigarro do convidado, como se fosse uma manifestação de apreço.
-Não vai comer mais não, meu filho?
-Não...
-Come mais, Ademar, você tá muito magrinho, meu filho!
-Não... É que eu preciso ir embora...
-Mas já?
-É...
-Fica mais um pouquinho!
-Tenho que trabalhar.
-Ah, tá certo... Quando a gente tem que trabalhar tem que trabalhar mesmo. Trabalho é o que faz você ser um homem, sabia disso? Trabalhar não é vergonha, é honra. Conitnue trabalhando, meu filho, você tá certo. Você não é que nem esse pessoal que vive aí nas costas dos pais gastando dinheiro em carro e drogas. Você tá certo! Eu não vou ficar te atrapalhando mais não, meu filho.
-Obrigado... pelo café.
-Ah, ia quase me esquecendo! O seu panetone! Peraí que vou lá buscar.
A Morte se levanta da cadeira e se dirige á porta, pára e espera a senhora voltar.
-Tá aqui! Guardei o maior deles pra você, viu, mas não fala nada pro Arlindo, se não ele fica com ciúme, viu? ahah
-Tá certo...
A senhora abre a porta, a visita sai, a senhora se despede:
-Até mais, meu filho! Bom trabalho!
-Obrigado.
A senhora tranca a porta. A Morte permanece no corredor do prédio, segurando o panetone. Mais um dia sem levar a senhora, mas a culpa não é dela. A senhora é muito simpática, o que poderia fazer? Recusar um café? Mas tem que fazer seu trabalho. A Morte estribucha um desabafo:
-Ah... eu não fui feito para isso...

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A Cidade

Avisto ela. A cidade que se ergue no seio da selva será a mesma cidade sonhada pelos velhos pajés e caçada pelos aventureiros? Aquela cidade esquecida de onde a união de todas os povos simbolizará o novo mundo e o novo homem que de lá emergirá? Acho que sim. Veja, por entre suas imensas e prateadas colunas andam pessoas de todos os tipos, com os mais variados penteados, vestimentas e cores. Ouço os mais variados dialetos. Mas ao contrário do que parece, essa não é uma Torre de Babel, pois todos se entendem. Eles andam por seus corredores admirando cada pequeno detalhe da construção, conversam entre si, se alimentam em seu pátio, fazem trocas com seus moradores. É todo um universo admirável, reluzente, agradável.
Quem diria encontrei a famosa cidade perdida. Mas qual será seu verdadeiro nome. Me afasto um pouco, olho para seu pórtico. Leio: Amazon Shoping.

domingo, 11 de julho de 2010

O Lado Sombrio da Luz

Sempre acreditei que a Ciência fosse a luz que iluminava as trevas do obscurantismo. Sempre acreditei que ela nos salvaria, nos salvaria de nós mesmos. Acreditava que chegaríamos a um ponto da História onde seríamos seres humanos melhores e civilizados, onde não existisse guerra ou fome. Como fui ingênuo, ingênuo e tolo. Agora eu vejo. Só lamento que tenha sido agora...
Quando criei a fórmula do gás sintético não pensava nisso, não pensava em nada além da aventura hercúlea do conhecimento de que estava participando. Para mim a Ciência era neutra, neutra e onipresente,como uma entidade divina e transcendental. Eu, como meus colegas cientistas, era um nobre sacerdote. Ledo engano. Estava mais para uma avestruz, com a cabeça enfurnada na terra.
De alguma maneira suspeitava das intenções do governo russo quando me ofereceram o projeto do gás sintético, mas deixei minha moral de lado, em nome da Ciência, em nome da luz, veja só! Por um tempo tentei me convencer de que não tinha feito nada de errado, que as decisões de utilizar o gás não eram minhas, mas a verdade é que eu sabia de tudo e fiz tudo. Não estava preocupado com as outras pessoas, mas com minha vaidade, meu objetivo de ser um renomado sacerdote da Ciência. O resultado está aí: 32 milhões de mortos na Criméia... Tenho 32 milhões de mortes no currículo...
O que será da minha vida de agora em diante? Viverei me explicando para todos que conheço? Me defendendo á todos? Assumindo minha culpa eme autoflagelando? Não sei, não sei o que fazer. Não aguento tanto peso nos meus ombros. A História me conhecerá como o açougueiro do gás. Não vou passar a imagem de inocente, pouparei a longa condenação dos tribunais. Essa noite tudo termina! Gostaria que terminasse comigo o gás, as mortes, tudo, mas não posso. Pelo menos eu terminarei essa noite!


Um tiro na escuridão do quarto silencia a angústia.

sábado, 10 de julho de 2010

LUGONES: A CÓLERA DOS DEUSES

Lugones: a Cólera dos Deuses


Arthur Reis Arendt
(artigo da revista de cultura Aymoré, vol. 54, jul-ago, 1937).

Encontramo-nos em pleno século XX, saídos do auge da tecnologia e da ciência moderna, e, no entanto, a maioria de nosso planeta ainda se configura em incógnita. Não precisamos ir muito longe para darmos um bom exemplo: a região norte, principalmente a província amazônica. Nós nos vangloriamos de ser um dos países mais fortes da Liga Panamericana, mas o poder central ainda não pisara nessa região. A Amazônia ainda nos é um enigma.

Descoberta pela expedição de Alfredo Pacheco Favela em 1545 e então batizada como Sertão da Água Doce, a região nunca foi totalmente colonizada. A ocupação portuguesa encontrou enormes problemas como o clima, os insetos, as doenças tropicais e as guerreiras indígenas conhecidas como Icamiabas, responsáveis pelo rebatismo da região como Terra das Amazonas. Em vista de todos esses problemas a empresa colonial portuguesa abandonou a região em 1715, desde então o sistema econômico predominante localmente tem sido o contrabando e o sistema político uma rede pulverizada de chefes regionais, ligados á pequenas tribos - a única exceção aconteceu com a Confederação Baré, quando as tribos do Vale do Amazonas se uniram sobre a liderança de um tuxaua (chefe) conhecido como Perequê para combater os contrabandistas, mas com sua morte ela se dissolveu.

Em 1875, a situação muda radicalmente. O governo central da República de Pindorama, com medo de perder suas províncias para seus vizinhos, inicia um processo de centralização, nomeando para cada província um comandante militar com poderes quase supremos, cuja missão seria assentar as bases administrativas e político-militares nas províncias e defendê-las, simultaneamente. Esses comandantes ficaram conhecidos como caudilhos. O caudilho designado para transformar a Terra das Amazonas na Província da Amazônia era o general Victor Lugones.

Com uma ficha impecável, o general Lugones era um verdadeiro intelectual, um homem dado á reflexão e um hábil estrategista. No entanto, o relato do aviador e aventureiro Ulisses Ramirez Figueira, que visitou a região em 1893, encontra no comando da província o general Lugones, mas um Lugones diferente. Um Lugones louco, imprevisível e brutal, responsável por milhares de massacres. O que terá acontecido com o caudilho Lugones? Será que a selva terá o transformando? Mas como?


I

Antes de respondermos a essas intrigantes perguntas que certamente iluminarão nosso conhecimento sobre a Amazônia, precisamos apresentar melhor nosso objeto de estudo, o general Victor Lugones.

Victor Vélez Lugones nasceu em 22 de outubro de 1834, na pequena cidade de Pouso dos Guaianazes, no interior da província fluminense. Filho de um comerciante, imigrante espanhol, com uma costureira nativa, a única possibilidade de uma boa formação e ascensão social para Lugones era o Exército. Por isso, com 8 anos completos entrou para a corporação. Após completar seus estudos fundamentais, Lugones, um rapaz ávido pelo conhecimento, decide continuar estudando, se aprofundando não somente nas técnicas militares (estratégia, história da guerra, etc.) O jovem oficial completava seus estudos na Academia com sua curiosidade; frequentava as mais obscuras livrarias e sebos á procura de livros que lhe interessasse, principalmente os de filosofia.

Foi num desses sebos que encontrou com sua futura esposa, Ana Maria Rândi, instruída jovem de uma família tradicional de São Gabriel de Batatais. Os dois discutiram muito sobre a natureza humana e a realidade das coisas, mas não demoraram muito para perceberem que estavam apaixonados. Em 1864, Lugones, promovido á coronel, casa-se com Ana Maria, depois de um ano de noivado. Eles tem 3 filhos: Alberto, Solano e Victor. Victor, no entanto, morre no parto, deixando dona Ana Maria inconsolável por meses.

Curiosamente, na mesma data eclodem as Guerras Ítalo-Turcas e Lugones, agora alçado ao generalato, é chamado para defender a frente norte do estreito de Gilbratar. Sua missão é não deixar passar as eventuais tropas armenas. No entanto, Lugones enfrenta muita resistência e desobediência de seus subordinados. Em razão disso aplica duras penas neles, como surras de chibata. O infeliz episódio eclipsou um pouco a promissora carreira do general. Seu amigo dos tempos de Academia, Francisco Salinas, no seu livro de memórias revela que Lugones voltara muito abalado da guerra; mesmo não tendo participado de nenhuma batalha decisiva, estava muito distante, tão marcado que estava pelo episódio da chibata.

Alguns anos depois Lugones retomou seus estudos, dessa vez na área conhecida como Psicologia de Massas. Publicou dois admiráveis estudos: Da Ordem (1873) e O Imaginário das Massas(1874). No primeiro analisa a idéia de poder não como se fosse algo imposto, mas que emanasse das pessoas, ou seja, que o poder resultaria da vontade de dominarem e serem dominadas. Já no segundo estudo fala de arquétipos presentes no imaginário social que podem ser explorados por um governador sábio para criar a paz social.

Atraído por seu amigo Salinas, Lugones aceita trabalhar no Ministério da Guerra como chefe do gabinete de estratégia, criando novas maneiras de repressão. Maneiras essas que foram rapidamente aplicadas pelo gabinete de segurança nas lutas por terra na província de Caburé. Caburé foi uma grande mancha na carreira de Lugones; seus métodos de contenção foram responsáveis por mais de 20 mortes de lavradores inocentes, entre eles crianças, que ocupavam o bairro de Santo Antônio de Leverger.

Em 1875, o governo central lança o Plano de Integração Nacional. Seu amigo no Ministério da Guerra, Salinas, indica seu nome para a comissão responsável pelo projeto. Há que se considerar, no entanto, que o governo e a corporação estavam um pouco descontentes com toda a fama de Lugones no momento, portanto, sua participação no projeto pode ter sido um meio de afastá-lo dos holofotes. Mesmo com medo da opinião pública á seu respeito, tanto o governo como o Exército reconheciam em Lugones um competente líder, com um futuro promissor no Exército , quiçá na Presidência da República.

Pouco antes de partir acontece mais uma tragédia: Ana Maria vem a falecer. Salinas nos revela mais uma vez em suas memórias que a morte do filho caçula lhe comoveu muito. E nos anos em que seu marido esteve participando da guerra e do gabinete de estratégia, ficou muito sozinha. Ao saber da notícia da nomeação de Lugones como caudilho responsável pela Terra das Amazonas, prevendo as dificuldades que viriam a seguir, se matou. Um episódio tão curioso quanto trágico, abordaremos ele com minúcia posteriormente.

Lugones, em vista da morte de sua mulher, foi um dos últimos caudilhos a partir em missão. Seu efetivo consistiria em um batalhão de soldados, duas esquadras aéreas e um dirigível fortemente munido de canhões e metralhadoras. Todo efetivo contava com a figura do chefe-médico, responsável pela equipe médica da tropa, o mecânico, um grande entendido em todas as máquinas que deveria consertá-las ou aprimorá-las quando possível, e um conselheiro militar, com a função de supervisionar o trabalho do caudilho. O chefe-médico da equipe de Lugones era o Dr. Roberto Lameira, eficiente comandante do Hospital da Base de Canguçu, seu mecânico era conhecido informalmente como Ferrari e seu conselheiro militar era o experiente e histórico marechal Enoch Carranza, grande nome da pacificação da República do Prata.

A partir daqui a vida do general Lugones é envolta em mistério e em certo desconhecimento. Nossa fonte a partir de agora será o livro de Ulisses Ramirez Figueiroa, Odisséia Amazônica. O autor foi recrutado pelo caudilho depois que este descobriu suas qualidades na aviação. No tempo em que esteve trabalhando para o caudilho ouviu muito a respeito de sua empresa amazônica por meio de seus colegas de trabalho. Segundo os mais antigos, quando chegaram aqui o contrabando dominava a região. Foram anos de guerra, perderam muitos homens. A situação se inverteu a partir do momento em que Lugones é aclamado como "tuxaua" pelos Barés que enxergam na figura imponente do general um herói reformador tal como Perequê. Os contrabandistas eram inimigos da maioria dos Barés, bem como as Icamiabas. Lugones conquistou o apoio dos Barés e com isso sua ajuda na luta contra os contrabandistas. Em pouco tempo, o cartel de Aguirre saíra da Amazônia.

Devido a falta de reforços expedidos pelo Ministério da Guerra á missão, Lugones toma uma decisão difícil: firma um contrato com os contrabandistas que acabara de expulsar, em troca de algumas drogas da selva receberá deles bens de consumo e armas. O próximo passo seria unificar todo o Vale do Amazonas através da Confederação Baré. Os maiores inimigos desta expansão foram as Icamiabas que foram quase totalmente exterminadas. A partir do Vale, Lugones se expandiu pela Bacia Amazônica, seguindo o curso dos rios. Estabeleceu torres de vígia, abriu campos no meio da selva, construiu pequenas cidades ao longo de seu domínio e construiu sua base logística numa árvore centenária no interior da selva.

Ulisses posteriormente deserdou, tendo de se refugiar entre as populações ribeirinhas. Uniu-se a um movimento de resistência, entre tantos na região, e ouvia relatos terríveis sobre os massacres promovidos pelo caudilho. Um deles, o da tribo Waimiri, ficou conhecido pelo grau de crueldade: as crianças foram presas em uma oca onde atearam fogo. Dizem que, depois disso, Ferrari também deserdou as forças armadas.

Em 1894, um ataque áereo á base de Lugones, do qual participou Ulisses, destrói sua torre de operações, matando o junto. Após sua morte, o Estado amazônico criado por ele se fragmentou. A Confederação Baré herdou, no entanto, sua infra-estrutura e nos anos seguintes tornaria-se o embrião de um novo Estado amazônico, o que conhecemos hoje.

II
Depois de tomarmos conhecimento da vida dessa misteriosa figura, cabe nos agora algumas observações.
Primeiro, a morte de sua mulher. Em entrevista com o marechal Francisco Salinas, descobrimos, extra-oficialmente, que ela fora assassinada. Desconfiado do ocorrido o general mandara fazer uma autópsia que revelou morte por estrangulamento e não por ingestão de remédios como dissera Lugones. O resultado da autópsia saiu após a nomeação de Lugones e sua consequente partida, portanto, já era tarde demais para prendê-lo. Acreditamos que o marechal Salinas tenha se chocado com o ato do velho amigo, como transpareceu em nossa conversa informal.

A prisão de Lugones não foi efetivada por causa da mudança de gabinete. O presidente J. Barros renunciara dias depois e assumira o vice Carlos Luiz que começara uma mudança radical no Estado Maior e consequentemente no Ministério da Guerra, temendo um golpe militar. Os pedidos de prisão de Salinas não foram levados em consideração pelo novo Ministério, tão interessado ele estava em afastar membros conservadores da caserna que a prisão de um ilustre oficial poderia gerar mais burburinho. Nos anos seguintes a missão Amazônia foi esquecida pelo gabinete, o que explica os reforços que nunca vieram para Lugones.

Ora, esse surpreendente fato nos mostra que o general já havia mudado antes de entrar na selva. Os motivos que levaram a matar a esposa ainda nos são desconhecidos, mas podem ter origem no trauma da guerra. Um intelectual como ele, tão interessado no diálogo e na reflexão, deve ter se chocado com a anarquia da guerra, aspecto que foi sua principal preocupação nos anos seguintes, como evidenciam seus artigos e estudos sobre o problema da indisciplina.

Outro ponto interessante: Ulisses em seu relato nos fala que a figura de Lugones era temida por todos, desde os ribeirinhos até os oficiais de seu mini-Estado Maior. Conhecido como "o tuxaua", "generalíssimo" ou ainda "demônio caraíba" entre seus inimigos. De onde vinha esse temor? O piloto nos fala que os Barés vinham nele um herói reformador, uma espécie de semi-deus que controlava máquinas incríveis como o potente dirígivel. É possível que sua crueldade tenha contribuído também para essa imagem de herói reformador ao ser impiedoso com os inimigos.
Ulisses nos fala ainda do temor vindo dos próprios oficiais: "O interessante era que a maioria dos oficiais, mesmo os generais, temiam sua pessoa. O motivo era principalmente sua imprevisibilidade. Diziam que mudava de planos no meio da noite ou criava novos do nada e os punha em prática o que exigia uma poderosa organização dos oficiais, pois, uma vez não efetivados os planos, expurgos eram cometidos".
O que aqui temos senão uma autocracia; a figura do caudilho dominava toda a vida da população, era amado ou odiado por todos. O que explica a desintegração de seu império após sua morte, tão centrado estava a organização político-militar em sua pessoa que não sobreviveria sem ele.

Mais uma vez recorremos a Ulisses: "Na verdade era assustador o modo como ele parecia totalmente insano. Mais assustadora ainda era como ele tornava-se rapidamente extremamente lúcido, o que me dava a impressão de que fingia saber o que estava fazendo, que fingia estar louco (...)". Esse é um dado muitíssimo curioso: fingir estar louco. Bem, é comum ao neurastênico espasmos de lucidez, no entanto, é interessante também avaliarmos a hipótese de Ulisses. Por quê? Talvez a imprevisibilidade e loucura de Lugones sejam intencionais. Explico: Lugones dedicou boa parte de sua vida a tratar a indisciplina e todos sabem que a selva tropical é um lugar suscetível á desobediência e a marginalidade, melhor exemplo disto está nos episódios coloniais de sua história, talvez ele tenha descoberto o potencial do medo, através da imprevisibilidade, na construção da disciplina.

Outro fato interessante é o conteúdo ideológico do caudilho. Tanto Ulisses como Salinas diziam que Lugones tinha uma espécie de imponência, do tipo daqueles homens que tem certeza de seu objetivo. Ulisses nos fala que nos poucos discursos que ouviu dele podia-se ver seu ideal em transformar a Terra das Amazonas numa província de progresso e civilização. Um progresso e civilizaçaõ que deveria passar pelo extermínio dos dissidentes e a destruição da selva. Mais uma vez, volta a imagem de herói-reformador, mas de um tipo diferente, um herói-modernizador; igualmente implacável e mítico, uma espécie de semi-deus, porta voz dos deuses do Progresso e da Ciência. É irônico, no entanto, que para construir a civilização na Amazônia Lugones tenha se valido da loucura, da brutalidade e do medo.

Pessoas que se consideram acima do Bem e do Mal, por causa de seus ideais transcendentais, sempre desrespeitam o mundo sensível, o mundo das práticas, do cotidiano, renegando a ética para debaixo do tapete. Analisando pelo prisma do idealismo, tlavez Lugones seja uma dessas pessoas. Acreditar estar acima de qualquer julgamento pode ter lhe dado o aval para seus atos deploráveis, seja em nome da disciplina seja em nome do Progresso. Assim sendo, Lugones seria um dos monstros produzidos pela razão, como diria o grande pintor Francisco Goya.

III
Gostaria de ressaltar que o que foi exposto logo acima não passa de conjecturas; nunca saberemos com certeza o que terá passado pela cabeça de Lugones, nunca saberemos como ele se transformou nesse ícone de maldade e insanidade. Pode ser que a selva tenha um peso considerável nessa transformação, pode ser que não. A verdade é que nunca saberemos, porque nunca descobriremos, é o que me parece, os mistérios da alma humana. Falar de Lugones não é somente uma aula de História, uma história vergonhosa com certeza. Falar de Lugones é falar da própria alma humana. Nossa alma de certa forma é uma imensa selva tropical, quase insondável, onde habitam monstros temíveis e maravilhas incríveis. Mesmo com toda a tecnologia que dispomos não é possível ainda conhecê-la em todo, somente parcialmente.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Entre dois mal ou a segunda viagem dos Acuntsu 2

Amanheceu. Os guerreiros que foram mandados para atrapalhar a vinda dos caraíbas acabam de voltar, meio sujos e afobados. Vão falar com Pindarô, dizer que são muitos caraíbas e eles já deram jeito nas toras que derramaram no rio. Pindarô não demonstra medo, por fora. Manda acordarem todos. As mulheres e as crianças vão pegar as armas que ficam no barracão e se esconderem no meio do mato. Todos os guerreiros ficarão aqui, esperando o inimigo. A tática vai ser simples: todos ficarão escondidos, atrás das ocas, dando a impressão de que a taba está vazia, pra fazer uma emboscada nos caraíbas. É um bom plano, mas todos sabem que os caraíbas tem muito mais homens e armas.
Apreensão no rosto de todos. Só de Apinaã que não. Apinaã está angustiado, a culpa cai nas costas de Apinaã. Pindarô percebe e por isso fica perto de Apinaã esperando a oportunidade de perguntar o porque disso. Quando todos estão em posição, Pindarô pergunta:
-O que te aflige, meu filho?
-Nada, Pindarô.
-Pindarô sempre teve visão muito boa e tua angústia é tão visível pra Pindarô como o céu azul.
Apinaã considera: de qualquer forma ele terá que contar ao velho. Que seja agora, já que o monstro pode reclamar seu pagamento muito cedo.
-Pindarô, eu fiquei preocupado com os caraíbas... então eu sai um dia e...
Os olhos de Apinaã se cerram:aparece uma nuvem de fumaça perto da curva do rio. São so caraíbas chegando. Momento de apreensão. Só se ouve o barulho dos motores.Pindarô reza dentro de si, pedindo força pra lutar.O nariz do barco encouraçado aparece na curva do rio. Os guerreiros todos respiram fundo, como se faz anbtes de mergulhar. A arfada dura o tempo do barco aparecer por inteiro. Logo atrás aparece outro e mais outro... São quatro barcos.
Todos cheios de gente, cheio de caraíba armado.
O primeiro barco atraca no barranco, desce um punhado de caraíbas. Eles vão adentrando a taba, receiosos, procurando guerreiros. Uns acham que todos fugiram, outros não.
Os guerreiros avançam. O primeiro sai de trás da oca de Pindarõ e acerta a garganta de um caraíba e desde já começa um tiroteio danado. Apinaã avança e pega dois caraíbas: um com a lança e outro com dois tiros de sua garrucha. Pindarô é bom de tiro, já acertou uns cinco. A chuva de tiros é braba. Muitos guerreiros já tombaram, a começar pelo que iniciou o ataque.
Aquela carabina grande presa na frente do barco demora a carregar, mas quando atira abre buraco no chão que nem caminho de sucuri grande. Eles tão terminando de carregar ela. Mas não dá tempo. O barco vira!Os caraíbas caem todos na água.
Barco virar no raso é muito difícil. Os homens dos outros barcos não entenderam nada.Do rio sai uma boca florida de dentes e engole um punhado de caraíbas como se fosse água.
O barco da frente começa a atirar. Não adianta. Vem o bichão e pega o barco com os dentes e vira. O barco logo atrás dele leva uma rabada, partindo-se ao meio.O último tenta fazer a curva, mas é lento demais, o monstro joga a cabeça pesada de tudo contra a proa do barco, afundando-o.
O tiroteio acabou depois do segundo barco ser destruído, depois disso muitos caraíbas fugiram pro mato. Alguns ficaram parados, vendo tudo, chocados. Chocados também estavam os guerreiros, menos Apinaã. Apinaã só pensa em como cumprirá com seu acordo agora.
Do fundo do rio emerge aquela cabeça cascuda e o bichão, com os olhos pra fora d'água, brame:
-Macaco pelado!... Macado pelado! Já fiz minha parte do trato, agora quero teus filhotes e tuas virgens!
A voz assustadora fez um bocado de guerreiros cair no chão. Pindarô, mesmo assustado e cansado, fica de pé, tentando entender a fala do monstro.
-Monstro, quem é tu? É Ururã?
-É, macaco velho... é Ururã... e quero meu pagamento!
-Que pagamento?
Vem um ronco tenebroso do monstro que é na verdade um pigarro. Então ele responde:
-Um dos teus macacos sem rabo me fez um trato esses dias... queria que eu matasse caraíbas... se eu matasse ia receber 10 de teus inocentes, filhotes e virgens... Eu matei caraíbas, agora quero minha parte!
Pindarô demora a descobrir quem fez o trato, mas quando vê Apinaã de cabeça baixa, entende tudo.
-O homem que fez o trato com você, demônio, não manda em nada aqui! Esse trato não tem valor!Não vamo te dar ninguém.
já sabendo a reação do monstro, Pindarô começa a se afastar. Ele sabe que o bichão é grande demais e não tem chance de pegar eles correndo na mata fechada. Outro ronco, dessa vez de raiva. O monstro se atira pra margem. Metade do corpo fora d'água. Tenta puxar o corpo truculento e reluzente pra terra, mas as patinhas gordas não conseguem. Abre a bocarra e arregaça os dentes, os olhos vermelhos se colorem de ódio. Os guerreiros tudo fogem. O bichão não consegue segui-los, afunda no barranco e depois de lutar por alguns minutos contra a gravidade, desiste e volta ao rio.
Os guerreiros correm na mata. Á certa altura se encontram com suas famílias e incitam elas a correrem também. Todos correndo na mata. Ninguém entendendo nada. Quando chegam numa trilha aberta pelos kadiwéus para visitar seus "irmãos", param, tomam fôlego. No entanto, nenhum guerreiro quer contar o que aconteceu. Um deles, depois de respirar um pouco, explica para o resto da taba sobre o monstro. Pindarô, agora enfurecido procura Apinaã, não acha, ele não está mais aqui.
-O que vamos fazer agora, Pindarô? Se a gente entrar no rio o monstro pega a gente, sea gente seguir essa trilha vamos chegar perto da taba dos caraíbas.
Pindarô pondera:
-O jeito, meu filho, é falar com Kiantô.
-Mas Kiantô só aparece com chuva, Pindarô!Vamos esperar chover?
-Isso mesmo...
A tribo toda dormiu na trilha. Ficava sempre dois vigias acordados. Apinaã estava ali, mas sempre afastado do grupo de forma a não ser visto. Apinaã voltara a desonrar seu povo. Não poderia estar mais envergonhado. Uma voz na sua cabeça dizia que tinha feito a coisa certa, que 10 poderiam morrer para salvar um povo inteiro. Apinaã tentava se justificar, mas não adiantava, ele sabia que não ia parar por aí. Mais caraíbas viriam e eles teriam que alimentar o bichão sempre para ele protegê-los. Do que ia adiantar perder metade da tribo nos dentes do jacaré? Tinha errado mesmo.Apinaã poderia voltar ao rio e pedir pra ser comido pelo bicho, findando o acordo, mas também não adiantaria. O monstro o devoraria e continuaria a perseguir a tribo. Apinaã colocou seu povo entre dois mal.
Chegou outro dia. Nada de novo, todos continuavam angustiados. Dois guerreiros foram caçar pra alimentar a tribo. Pegaram três catitus. No meio do almoço, pingos. Começa a chover aquela chuva fina. Do tipo que Kiantô adora.
Depois de um tempo dá pra ver as costas de Kiantô no céu. kiantô aparecia no céu quando dia de chuva desse jeito, com o corpo em forma de arco, mostrando suas costas com todas as cores da floresta. Nessa hora que o chefe falava com ela, pedindo ajuda, conselhos ou louvores. Pindarô pôs-se a falar com Kiantô:
-Kiantô, caraíbas querem nos escravizar, Ururã, demônio do rio, quer nos matar. Não sabemos o que fazer. Por favor, nos ajude!
A voz de Kiantô era como o som da chuva, mas calma e pausada.
-Vocês não tem com o que se preocupar. Kiantô trouxe vocês pra essa terra e Kiantô vai achar outra terra pra vocês. A terra que vocês precisam está no Rio da Água Dourada, bem no começo dele. Lá Ururã não entrará e nem caraíbas, porque eu impedirei.
A voz de Kiantô foi sumindo, como a chuva. Em pouco tempo suas costas coloridas sairam do céu. Todos estavam preocupados na verdade. O rio da Água Dourada era muito longe, eles teriam que passar pela taba dos caraíbas,que fica no entrocamento do rio da Água Dourada com o rio Acuntsu, e depois teriam que passar pelos seus inimigos,os Carirés, conhecidos como Guerreiros Loucos. Mas se Kiantô reservou uma terra para eles ali, então eles deveriam aproveitar a oportunidade. Pindarô iniciou marcha com a tribo. Não seria fácil, mas teriam que estar prontos desde já.
(CONTINUA...)

sábado, 26 de junho de 2010

Entre dois mal ou a segunda viagem dos Acuntsu

Apinaã era bravo guerreiro, homem forte e de atitude. Mas desde que voltara do cativeiro, Apinaã mudou muito. Não olhava mais com o mesmo olhar os outros índios da taba. Era um olhar diferente. Ninguém sabia porque.
Os Acuntsu estavam passando por um momento delicado. Depois que conheceram os caraíbas tudo mudou. Esses caraíbas não eram como os anteriores, com quem eles negociavam quinquilharias. Esses caraíbas eram piores: queriam que sua tribo se ajoelha-se para eles, que a tribo usasse as roupas deles, que a tribo obedecesse ao chefe deles, o demônio caraíba.
Os Acuntsu eram grandes guerreiros no passado, lutaram bravamente contra a confederação dos barés anos antes. Eram uma das únicas tribos que se recusava a se unir á confederação. No entanto, os caraíbas tem armas muito potentes. Seus barcos feitos de metal, cuspindo fumaça, não sentem o peso das flechas e dos tiros de carabinas. Suas armas possuem mais balas que as carabinas e espingardas. Nas batalhas anteriores tanto os Acuntsu como os seus "irmãos", os Kadiwéu, foram massacrados.
Apinaã foi um dos que lutaram ao lado dos "irmãos" perto da foz do rio Jari. Ele matou muitos caraíbas, mas foi capturado. Ficou preso em uma jaula por dias. Da jaula ele podia ver os caraíbas surrarem seus amigos e "irmãos", quase todos os dias. Apinaã ficou com vergonha. Fico com vergonha de seu povo, por ser tão fraco, por não responder á altura.
Depois de duas semanas Apinaã foi solto. Os caraíbas pediram para que ele dissese á sua tribo que eles chegariam na aldeia em cinco dias. Era para eles escolherem: ou se rendem ou lutam. Apinaã agora estava mais envergonhado ainda: o destino dos grandes guerreiros é ser morto em combate, ele, por outro lado, foi preso e agora solto como um simples menino de recados. Apinaã sentia o peso da vergonha nas costas, por isso andava envergado agora.
Quando chegou a taba, disse que queria falar com o velho Pindarô. Todos ficaram surpresos com sua volta. Mas Apinaã não queria falar nada com eles, seus olhares só aumentariam mais ainda sua vergonha. O velho Pindarô chegou.
-O que foi, meu filho?
-Pindarô, os caraíbas me soltaram pra falar com você que em cinco dias eles chegam aqui. Eles disseram pra gente se render ou lutar.
Pindarô pensa na notícia e de pronto responde:
-Que bicho ignorante esses caraíbas! Pensam que nós vamo nos render! Essa terra foi nos dada por Kiantô, eles ganharam a parte deles e querem a parte de todo mundo. Se os barés esqueceram disso vamo lembrar á eles. Vamos continuar lutando!
Os curiosos ao redor, eram muitos, se entusiasmaram. Mas um perguntou:
-Pindarô, e como nós faz pra lutar com eles? Eles tem mais armas que nós e os barcos deles são fortes como couro de jacaré! Nós temos pouca gente pra lutar, pouca carabina pra atirar...
-Adjnew, não se preocupe. Kiantô nos ajudará.
Pindarô parou um pouco pra pensar, enquanto pensava remoia nos dentes a erva que tinha comido para curar a dor na garganta. Depois de pensar e ruminar, falou:
-Karidjé e Techua, vocês vão escolher mais 3 home pra ir com vocês descer o rio. Vocês vão derrubar árvores no rio pra atrasar eles.
-Sim, Pindarô.
-Nós vamo pensar no que fazer enquanto isso...
Apinaã acompanhava tudo cabisbaixo,olhando com o canto do olho. Com o canto do olho ele também podia ver o pessoal em volta olhando para ele, com surpresa e com desconfiança.
-Apinaã, meu filho, vamo conversar.
Pindarô pegou Apinaã pelo braço e levou até sua oca. A oca de Pindarô era grande, tinha muitas redes. Sua mulher tava no chão cozinhando um cauim pra melhorar sua dor na barriga. Sua filha tava balançando em uma das redes.Era índia bonita ela.Chamava Mani e tinha olhos bonitos de quem tem curiosidade e simpatia pela vida. Ela olhava para Apinaã com um olhar desconfiado. Apinaã se surpreendeu a ver que ela estava diferente, com uma trança colorida, sinal de que iria se casar em breve.Mas logo o olhar dos dois se chocou; ele, envergonhado, desviou, ela, sapeca, achou graça.
-Mani, por favor sai um pouquinho pra eu falar com o moço.
Ela então desceu da rede, com o corpo mole, e saiu da oca.
-Eu pedi pra ela sair, porque tenho medo dela se assustar com as coisas que nós vamo falar.
-Que coisa, Pindarô?
-Dos caraíbas, meu filho. Ela tem medo deles. Ela nunca viu, mas acha que eles tem unha de tamanduá e corpo de onça.
Pindarô cospe a ervinha que tava no canto da bochecha.
-Apinaã, tu ficou preso na casa deles?
-Fiquei,Pindarô.
-E como é que é? A casa é muito grande? Tem muita arma?
-Era duas vezes mais larga que tua oca. Tinha umas arapuca onde nós ficava preso. Ficava dois caraíba vigiando a gente e quando o caraíba chefe saia, eles pegava um de nós da arapuca pra fazer maldade.
-Bicho ruim esses caraíba!
-Mas eles tinha muitas armas. As carabinas deles eram grandes, tinham também uns trabucos mais leves que levam na cintura.
-Garrucha?
-Sim, mas sem pólvora.
Chegou a ver o barco deles? Se tinha muito ou um só?
-Num vi, Pindarô. Eles me soltaram no meio do mato de noite.
-É... Não se preocupe, Apinaã. Nós ficamos felizes por você ter voltado. E tu lutará ao lado agora de sua família.
-Sim, Pindarô.
Os dois pararam de falar. A mulher de Pindarô deu uma cuia com o cauim pro velho e, pra não fazer desfeita, ofereceu uma tigela de açaí pra Apinaã. Os dois homens pensavam longe agora. Enquanto Pindarô tava preocupado em como arrumar a aldeia pra atacar os caraíbas, Apinaã estava certo de que eles não tinham chance nenhuma. Apinaã tava lamentando já a morte de todo mundo, principalmente a sua. A guerra ia ser um massacre. Ele tinha visto a guerra no Jari. Os caraíbas tinham carabinas que cuspiam pra mais de mil tiros de uma vez só. Eles nem precisavam estar perto pra atirar. Aquela, por exemplo, estava presa na copa das árvores, atirando pra baixo.
O resto da tarde, Apinaã andou pensativo, sentado perto da oca do velho. Foi até a beira do rio, pedir á Kiantô, a cobra das costas de arco-íris, para ajudá-los. Mas Apinaã estava duvidando de Kiantô. Nunca vira ela e ela não impediu a morte dos seus "irmãos". Pra ele Kiantô tava era em outra braçada do rio, bem longe dali.
Mas enquanto olhava o rio Apinaã teve idéia. Ele sabia de quem morava por perto.
Quando Kiantô trouxe os Acunstu para essa beirada do rio,advertiu que ali perto morava Ururã, o pai dos jacarés. Ururã era um jacaré gigante, dos olhos vermelhos, que de tão velho o couro tinha virado pedra o que fazia ele impossível de ser morto.
Ururã se alimenta de tudo quanto é bicho, até de seus filhos, mas ele tem preferência pelas mulher virgem e pelas crianças. Ao contrário de Kiantô, Ururã sempre apareceu nessas paragens, pelo menos desde que Apinaã se entende por gente.
Vez ou outra as crianças que vão brincar na beira do rio são engolidas por ele. Não só aqui na taba, como nas tribos rio abaixo. Os Kadiwéu tentaram matar ele uma vez, depois dele ter comido a filha do pajé. Mas não deu em nada. Os cinco guerreiro que foram atrás dele voltaram boiando pelo rio tudo despedaçado.
Apinaã teve idéia. Pedir ajuda de Ururã, afinal, que ele saiba, ele odeia os caraíbas tanto quanto eles.
Chegando o final da tarde, Apinaã pegou uma canoa e disse aos outros que ia pescar. Subiu o rio. Quando chegou na parte do rio onde el vira dois, Apinaã pegou o caminho pra toca do Ururã. Era parte do rio onde a mata se fechava mais, parecia que aos pouco o teto das árvore ia cair no rio. Chegou num banco de areia, chamou por Ururã.
-Nunca vi macaco mais burro que tu, disse uma voz cavernosa vinda do canto do rio mais á frente.
Apinaã olhou bem e percebeu que o tronco caído mais á frente era o próprio Ururã.
-Num sou macaco, sou homem!
-Homem é macaco pelado e sem rabo. Tem o mesmo gosto que macaco. Mas quando é filhote ou é fêmea e num deflorou o gosto é diferente...
O monstro abrira os olhos, os olhos vermelho. Apinaã tentava criar coragem pra encarar o bicho. Mantinha a carabina perto da mão, mas sabendo que tiro nenhum ia fazer efeito.
-Eu vim aqui pra fazer acordo com você.
-Ururã num faz acordo.
-Ururã também não gosta dos caraíbas.
-Hm... Caraíba, bicho feio. Com gosto de pus...
-Mas nós também não gostamos deles.
-Ninguem gostar de caraíba, só eles mesmos.
-Então... Ururã pode se juntar a nós pra acabar com caraíba.
Nessa hora saiu aquele bramido, que parece que trovão dentro da barriga do bicho. Mas não era fome não, era riso.
-Eu não tenho que me preocupar com caraíba não,macaco pelado. Eles pode tentar me achar, mas nunca vão me matar. É pena ter menos gente pra comer, mas o que importa é que vou continuar andando pelo rio, comendo quem eu quiser.
Apinaã temia por sua vida: se não conseguisse o acordo é certo que o bicho ia engolir ele de uma bocada só.Então ele se desesperou:
-Ururã e se tu ganhar 5 virgens?
O monstro foi se aproximando lentamente do guerreiro, com interesse nos olhos.
-Hmm... faz tempo que Ururã não come virgem, parece que os caraíbas espantaram elas. Se Ururã te ajudar tua tribo vai ter que dar 5 virgens pra ele e 5 filhotes. E uma delas tem que ser filha do chefe!
Apinaã concorda.
-Quando chegar os caraíbas?
-Daqui a dois dias.
-Ururã vai tá lá. Mas depois que matar os caraíbas vocês vão ter que entregar a comida de Ururã. Deixa elas na beira do rio que eu venho pegar. Num se esquece, macaco pelado. Se num trazer elas, vocês nunca vão poder nadar no rio de novo que Ururã vai caçar vocês pra sempre.
Apinaã ouve atentamente. Ururã, lentamente volta para o canto em que estava. Apinaã pega sua canoa e sai rio abaixo. Enquanto vai descendo o rio, a tarde vai caindo, refletindo as cores do sol nas águas barrentas. Na cabeça, Apinaã está meio confuso. Afinal, Apinaã acabou de condenar 10 pessoas de sua tribo. Mas, pensa ele, pelo menos o resto da tribo vai continuar vivo. Enquanto rema, Apinaã tenta se convencer de que salvou toda a tribo.

(CONTINUA...)