O inseto transparente passeia delicadamente pela casa se perguntando aonde foram os inconvenientes gigantes de chinelo.
A senhora encostada na pia descascava o peixe.
"Descascar acari não é fácil, não! Tem todas umas manhas. A faca não pode raspar muito. Naõ pode ser que nem descasca mandioca, tem que ser como se tivesse pincelando, entendeu? Pintando um quadro. É... Descascar acari é uma arte!"
Ele ligava, ninguém atendia. Onde estaria ela? Com outro? Não é possível! E ele aqui no parque esperando ela chegar a uma hora! Liga mais uma vez, ninguém atende. É muita falta de consideração, viu! opa, alguém atende, é a mãe dela:
-Beto? Tudo bem? A Joana tá dormindo. Quer que eu acorde ela?
-Não, não, não precisa.
Desliga. Pô, dormindo?! E o nosso encontro no parque? Peraí... Liga de novo.
-Alô, dona Maria? Ela tá dormindo? Tem certeza mesmo?
(plágio é crime:Lei n. 9.610/98. Se quiser reproduzir em algum lugar esses textos, não se esqueça dos créditos.)
entenda:
aforismos futurismos
futurismos aforismos
afoturismos
futurismos aforismos
afoturismos
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Subterrâneos
Quando era criança acreditava que as paredes eram ocas e ali dentro habitavam pequenas pessoas, pequenos seres. Imaginava uma multidão de cosinhas andando lá dentro, como se fosse o centro de uma cidade.
Á noite, esperando o sono chegar, ás vezes eu olhava para as fendas da parede e podia ver seus rostos, espiando, vendo se não tinha ninguém acordado. Eu fingia que estava dormindo e esperava eles saírem para ver o que iam fazer, mas nunca saíram, acho que eram desconfiados demais.
O gato da minha prima não gostava de ficar no meu quarto, ficava eriçado. Acho que ele sentia os bichinhos da parede, mas era só no meu quarto. Ou seja, será que eles só viviam nas paredes do meu quarto? Nunca descobri ao certo. Eu já pensei uma vez em pegar um martelo e quebrar uma parte da parede para ver se achava eles, mas ficava sempre com medo de matar eles com isso. Então nunca fiz, mas sempre suspeitava.
A idéia nunca me desapareceu assim totalmente. Hoje não penso que em todas as paredes existam criaturinhas, mas pelo menos a daquele meu quarto tinha sim. Disso tenho quase certeza. Quando fui da Rosacruz uma vez tentei me comunicar com eles, telepaticamente. Fiquei umas horas parado em frente á parede tentando extrair algo dela. Cansado, depois de um tempo, coloquei a mão sobre ela e senti ela pulsando, como se tivesse cheia de vida. Desde então minha certeza sobre sua existência é patente.
Minha amiga um dia me veio com um livro proibido da Biblioteca do Exército, o irmão dela era militar, dizendo que a terra era oca, os maias haviam escapado para o centro da terra e ali viviam até hoje. Um colega meu achou ridículo isso, eu não. Ora, se existem gente na minha parede porque não existiriam pessoas debaixo da terra?
Á noite, esperando o sono chegar, ás vezes eu olhava para as fendas da parede e podia ver seus rostos, espiando, vendo se não tinha ninguém acordado. Eu fingia que estava dormindo e esperava eles saírem para ver o que iam fazer, mas nunca saíram, acho que eram desconfiados demais.
O gato da minha prima não gostava de ficar no meu quarto, ficava eriçado. Acho que ele sentia os bichinhos da parede, mas era só no meu quarto. Ou seja, será que eles só viviam nas paredes do meu quarto? Nunca descobri ao certo. Eu já pensei uma vez em pegar um martelo e quebrar uma parte da parede para ver se achava eles, mas ficava sempre com medo de matar eles com isso. Então nunca fiz, mas sempre suspeitava.
A idéia nunca me desapareceu assim totalmente. Hoje não penso que em todas as paredes existam criaturinhas, mas pelo menos a daquele meu quarto tinha sim. Disso tenho quase certeza. Quando fui da Rosacruz uma vez tentei me comunicar com eles, telepaticamente. Fiquei umas horas parado em frente á parede tentando extrair algo dela. Cansado, depois de um tempo, coloquei a mão sobre ela e senti ela pulsando, como se tivesse cheia de vida. Desde então minha certeza sobre sua existência é patente.
Minha amiga um dia me veio com um livro proibido da Biblioteca do Exército, o irmão dela era militar, dizendo que a terra era oca, os maias haviam escapado para o centro da terra e ali viviam até hoje. Um colega meu achou ridículo isso, eu não. Ora, se existem gente na minha parede porque não existiriam pessoas debaixo da terra?
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Museu da Morte

Recentemente descobri que minha colega, Ludmila Puzzi, está envolvida na construção de um museu em São José do Barreiro, Vale do Paraíba. Bem, o tema do museu não é exatamente sobre a cidade, muito menos sobre a escravidão ou o café; é um museu sobre a morte. Senão me engano é o primeiro museu orientado para esse tema.
Bem, não é uma iniciativa gótica, embora eu ache que eles iriam adorar, mas uma proposta de estudar a mentalidade, como o homem encarou a morte ao longo da história. A inspiração básica aí seria o trabalho do historiador francês Phillipe Àries, mas também ao historiador João José Reis que estudou os rituais mortuários entre escravos e fazendeiros e reconheceu neles marcas da sociedade colonial. Aliás, o trabalho de Ludmila foi exatamente nessa direção ao enfatizar o Cemitério de Escravos de São José do Barreiro e as transformações que aconteceram em sua geografia e seu simbolismo no decorrer das mudanças sociais.
Uma das preocupações iniciais, segundo ela mesma revelou, seria o que expor no museu. Antes de tudo tenho que esclarecer que o museu se situará dentro do próprio Cemitério de São José do Barreiro, então uma excursão pelo local já é ponto fundamental da futura instituição. No entanto, necessita-se de mais materiais para enriquecer o acervo e poder demonstrar a mentalidade sobre a morte. Achei que seria interessante demonstrar a mudança da mentalidade através da arte, aliás objeto privilegiado da análise dos historiadores da mentalidade, sendo assim, temos um acervo quase infinito: desde poemas, contos populares (como os que falei aqui anteriormente), quadros, fotos (no final do século XIX era costume tirar fotos dos falecidos e deixá-las com a família e com os ateliês), esculturas, etc.
Ainda não há data para a instalação do museu, mas até lá ainda dá para contribuir e muito através de sugestões aqui, nesse link.
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Aposentadoria
Corria pelo mato, olhando a cada passo desordenado apra trás, tentando ver se o rastreador continuava atrás dele. Estava muito escuro, só que via eram sombras, não tinha certeza se aquela ali era uma árvore ou o caçador. Na dúvida, continuava correr, com mais força ainda.
Um piso em falso, caiu do barranco. Desesperado tentou encontrar algum canto onde pudesse se esconder pelo menos. Tateando o chão se cortara com um caco de vidro ou pedaço de madeira, não sabe. É o fim: ele vai sentir o cheiro.
Sem outra idéia, deita-se no chão e fica imóvel com a esperança de que o rastreador não o veja. Esconde a mão ferida debaixo do corpo. Olha pra cima, para o alto do barranco, consegue ver perfeitamente o seu topo. Um chapéu, vê um chapéu aparecer. Lentamente a figura se mostra. Com uma capa um pouco esburacada nas pontas, o rastreador pára e observar a noite. O homem pode ver sua silhueta perfeitamente; sua frio. Ele coloca a mão no rosto, aperta alguma coisa, deve ser seu potente nariz de mentira. Ninguém sabe como ele funciona, só sabe que quando ele coloca essa coisa para funcionar sente o cheiro de uma paca a dois morros de distância.Eles são conhecidos por duas coisas: seu olfato e sua impiedade.
O homem sua, tenta diminuir o som de sua respiração. O rastreador meneia a cabeça. Olha para o fundo do barranco: pronto, foi achado.
Não há mais o que fazer. O impulso é fugir e é o que o homem faz. Levanta e dispara.O estampido seco, o homem cai no chão. Urra de dor, tenta levantar, mas o tiro foi bem nas costas. Não consegue. Rasteja um pouco. Ouve o som das botas do rastreador: estão ficando próximas. Mas desiste, não conseguirá ir muito longe. Vira-se e apela ao caçador:
-Por favor, senhor! Não me leve de volta... por favor (gagueja) me mata aqui!
O rastreador pega as mãos trêmulas do homem e as amarra. O levanta e coloca sobre as costas. O homem continua implorando, entre um grito de dor e outro. Chegam até á carroça metálica do rastreador. Joga o homem na caçamba e liga o motor, que mais parece uma velha tossindo.
-Me mata, senhor, por favor! O barão vai me maltratar por uns meses, ninguém merece morte loga do jeito que ele faz com os fugidos, ninguém merece... O senhor num sabe o que é aquilo!
A voz metálica finalmente responde ás súplicas:
-Eu só pego as pessoas, não mato.
-Mas, senhor, me mata, pelo amor de Deus! Eu te do tudo o que eu tenho, juro! Debaixo da minha cama, pode procurar, tem uma caixa cheio de conchas que eu guardei nesses anos todos. É sua! Só me mata antes!
O rastreador continua indiferente.
-Ninguém merece aquilo... meus parentes tudo morreram assim, depois de semanas na sala do matadouro, e a gente ouvindo eles gritar por nós... se tivessem matado eles antes não teriam sofrido tanto... por favor, senhor, me mata!
O rastreador começa a se incomodar com a ladainha.
-Se o senhor pudesse fazer uma pessoa que goste sofrer menos não faria? Eu sei que o senhor não me conhece, mas o que eu peço é pouco. O senhor diz que acertou errado e eu morri e não leva bronca do barão, é isso!
Silêncio.
-Por favor, senhor, eu não aguento mais tanto sofrimento, não aguento mais viver naquelas minas, ver minha gente sendo judiada. Se o senhor visse todo dia o que eu vejo também ia querer fugir de lá, mesmo que fosse morto.
O rastreador finalmente fala:
-Então porque não se matou?
-Porque eu tinha esperança de sair vivo de lá, mas agora, senhor... se o que me resta é a morte eu quero a morte. Tudo pra não voltar pra lá.
O rastreador pára a carroça de metal. Sai da frente e vai até a caçamba. Olha por uns instantes o pobre diabo. Pega a arma. Antes de se ouvir o tiro, o condenado diz baixinho, como um alívio:
-Muito obrigado...
O rastreador volta para a frente da carroça e liga de novo a máquina. Ainda não entendeu porque fez isso. Talvez seja o cansaço, afinal são mais de vinte anos ou mais fazendo isso. Quantos já não pediram o mesmo. É o cansaço. Parece que isso nunca vai acabar. Bem, talvez um dia isso acabe...
Um homem corre pela casa, esbarra na mesa da cozinha, deixa cair o vaso de flores que a enfeitava. Atravessa o corredor quase tropeçando. Entra em um quarto. Revira o armário, tenta achar a arma que costuma guardar aqui. Não acha. Será que ele a pegou? Vê a janela, tenta abrí-la. O som da porta fechando. Olha para trás e lá está a figura obscura, de chapéu, arma em punho e a capa toda esburacada (um pedaço ficou preso na porta). Desiste de arrombar a janela. tenta ser calmo e encarar o perigo.
-Mas o que você quer? Te pagaram para me pegar, né? Diga, quem pagou? Quanto foi? Você sabe que eu posso dar muito mais pra você não me pegar!
A voz metálica responde:
-Seu barão, não vim aqui pra te pegar não... vim aqui pra te matar.
O rosto do homem empalidece, está petrificado.
-Mas quem...
-Não tem ninguém não, seu barão. Tô fazendo isso por minha conta... vim pedir minha aposentadoria.
O tiro atravessa a janela, um corpo cai ao chão e outro sai pela porta, sereno... finalmente.
Um piso em falso, caiu do barranco. Desesperado tentou encontrar algum canto onde pudesse se esconder pelo menos. Tateando o chão se cortara com um caco de vidro ou pedaço de madeira, não sabe. É o fim: ele vai sentir o cheiro.
Sem outra idéia, deita-se no chão e fica imóvel com a esperança de que o rastreador não o veja. Esconde a mão ferida debaixo do corpo. Olha pra cima, para o alto do barranco, consegue ver perfeitamente o seu topo. Um chapéu, vê um chapéu aparecer. Lentamente a figura se mostra. Com uma capa um pouco esburacada nas pontas, o rastreador pára e observar a noite. O homem pode ver sua silhueta perfeitamente; sua frio. Ele coloca a mão no rosto, aperta alguma coisa, deve ser seu potente nariz de mentira. Ninguém sabe como ele funciona, só sabe que quando ele coloca essa coisa para funcionar sente o cheiro de uma paca a dois morros de distância.Eles são conhecidos por duas coisas: seu olfato e sua impiedade.
O homem sua, tenta diminuir o som de sua respiração. O rastreador meneia a cabeça. Olha para o fundo do barranco: pronto, foi achado.
Não há mais o que fazer. O impulso é fugir e é o que o homem faz. Levanta e dispara.O estampido seco, o homem cai no chão. Urra de dor, tenta levantar, mas o tiro foi bem nas costas. Não consegue. Rasteja um pouco. Ouve o som das botas do rastreador: estão ficando próximas. Mas desiste, não conseguirá ir muito longe. Vira-se e apela ao caçador:
-Por favor, senhor! Não me leve de volta... por favor (gagueja) me mata aqui!
O rastreador pega as mãos trêmulas do homem e as amarra. O levanta e coloca sobre as costas. O homem continua implorando, entre um grito de dor e outro. Chegam até á carroça metálica do rastreador. Joga o homem na caçamba e liga o motor, que mais parece uma velha tossindo.
-Me mata, senhor, por favor! O barão vai me maltratar por uns meses, ninguém merece morte loga do jeito que ele faz com os fugidos, ninguém merece... O senhor num sabe o que é aquilo!
A voz metálica finalmente responde ás súplicas:
-Eu só pego as pessoas, não mato.
-Mas, senhor, me mata, pelo amor de Deus! Eu te do tudo o que eu tenho, juro! Debaixo da minha cama, pode procurar, tem uma caixa cheio de conchas que eu guardei nesses anos todos. É sua! Só me mata antes!
O rastreador continua indiferente.
-Ninguém merece aquilo... meus parentes tudo morreram assim, depois de semanas na sala do matadouro, e a gente ouvindo eles gritar por nós... se tivessem matado eles antes não teriam sofrido tanto... por favor, senhor, me mata!
O rastreador começa a se incomodar com a ladainha.
-Se o senhor pudesse fazer uma pessoa que goste sofrer menos não faria? Eu sei que o senhor não me conhece, mas o que eu peço é pouco. O senhor diz que acertou errado e eu morri e não leva bronca do barão, é isso!
Silêncio.
-Por favor, senhor, eu não aguento mais tanto sofrimento, não aguento mais viver naquelas minas, ver minha gente sendo judiada. Se o senhor visse todo dia o que eu vejo também ia querer fugir de lá, mesmo que fosse morto.
O rastreador finalmente fala:
-Então porque não se matou?
-Porque eu tinha esperança de sair vivo de lá, mas agora, senhor... se o que me resta é a morte eu quero a morte. Tudo pra não voltar pra lá.
O rastreador pára a carroça de metal. Sai da frente e vai até a caçamba. Olha por uns instantes o pobre diabo. Pega a arma. Antes de se ouvir o tiro, o condenado diz baixinho, como um alívio:
-Muito obrigado...
O rastreador volta para a frente da carroça e liga de novo a máquina. Ainda não entendeu porque fez isso. Talvez seja o cansaço, afinal são mais de vinte anos ou mais fazendo isso. Quantos já não pediram o mesmo. É o cansaço. Parece que isso nunca vai acabar. Bem, talvez um dia isso acabe...
Um homem corre pela casa, esbarra na mesa da cozinha, deixa cair o vaso de flores que a enfeitava. Atravessa o corredor quase tropeçando. Entra em um quarto. Revira o armário, tenta achar a arma que costuma guardar aqui. Não acha. Será que ele a pegou? Vê a janela, tenta abrí-la. O som da porta fechando. Olha para trás e lá está a figura obscura, de chapéu, arma em punho e a capa toda esburacada (um pedaço ficou preso na porta). Desiste de arrombar a janela. tenta ser calmo e encarar o perigo.
-Mas o que você quer? Te pagaram para me pegar, né? Diga, quem pagou? Quanto foi? Você sabe que eu posso dar muito mais pra você não me pegar!
A voz metálica responde:
-Seu barão, não vim aqui pra te pegar não... vim aqui pra te matar.
O rosto do homem empalidece, está petrificado.
-Mas quem...
-Não tem ninguém não, seu barão. Tô fazendo isso por minha conta... vim pedir minha aposentadoria.
O tiro atravessa a janela, um corpo cai ao chão e outro sai pela porta, sereno... finalmente.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Antióquia
Ouço o som dos automóveis lá fora, cruzando os ares. Alguns totalmente irritantes, com seus pigarros intensos. Mas não me afetam muito, continuo comendo meu melão. De onde vim não tinham melões como esse. Não tenho certeza se é transgênico ou orgânico, porque não sei se os que comia era orgânicos ou transgênicos. Mas o que importa? está delicioso e pronto.
Senta um casal japonês na mesa á minha frente. Eles falam muito alto, mas finjo que não estou nem aí. Aliás, é impressionante a quantidade de asiáticos aqui; andando pelas ruas, dez em cada oito pessoas são chineses, coreanos, japoneses ou de qualquer outro país onde as pessoas tem olhos puxados. Maurice, meu amigo, disse que tinha a ver com a queda dos Tigres Asiáticos, a maioria deles vieram para cá então, onde havia mais oportunidade. É... quando a situação aperta não há nacionalismo que aguente.
Quem sou eu para falar deles. Eu mesmo saí de meu confortável, mas paupérrimo país para viver em Antióquia. Não que eu gostasse muito de meu país, mas era meu país, eu nasci ali. Pensando bem, acho que isso nem importa mais. Afinal, é apenas uma pedaço da crosta terrestre com pessoas em cima. De qualquer maneira, mesmo não gostando tanto assim de minha terra natal, decididamente não gosto de Antióquia também. É uma cidade enorme onde tudo parece ruína, quando você passeia pelas ruas é inevitável sentir um cheiro de óleo queimado e peixe, as pessoas só estão interessadas no seu dinheiro, dê você á eles voluntária ou involuntariamente. Que beleza há aí? Antióquia, ao meu ver, é o fim do poço da Humanidade.
E, veja bem, até uns trinta anos atrás era um monte de casas de alvenaria se diluindo á cada chuva ácida de verão. Se não fosse por esse enorme lixão no seu subsolo isso aqui continuaria sendo um deserto de veraneio. Antióquia... o maior ferro-velho da Historia.
Acabou o melão, que pena! Bem, pelo menos os japoneses pararam de berrar um para o outro. Odeio quando a pessoa termina de comer o que tem que comer e fica na mesa do restaurante sem fazer nada, olhando para o ponto cego das coisas, mas é exatamente o que estou fazendo agora. Se estivesse com a boca aberta seria o mesmo que ver um jacaré na beira do rio depois do almoço. É melhor me levantar e fazer algo, chega de tanta letargia.
Atrás da minha mesa está uma enorme janela, onde vão os casais de namorados (endinheirados, é claro) trocar beijos e admirar essa bela paisagem que é Antióquia. Mesmo com sua cor onipresente de ferrugem, a cidade tem um certo charme quando vista assim. Talvez seja algum efeito da janela, sei lá. A cada dia os edifícios crescem mais um metro e não é possível mais ver suas bases. A nuvens atrapalham a visão. Na realidade não são nuvens de verdade, mas gases tóxicos expelidos pelas fábricas e pelo lixo encrustado na antiga superfície da cidade. Vez ou outra algum maluco louco por adrenalina tenta descer até lá e voltar sem ficar inconsciente e acaba intoxicado.
Estranho... eu não tinha visto aquele prédio amarelo ali. Não é uma fábrica, deve ser mais um restaurante ou então um bordel. O alarme de meu relógio dispara, está na hora, tenho que subir e fechar o negócio. É um poço de chorume, estamos tentando vender para dois sheiks. Um já concordou com a nossa divisão nos lucros o outro ainda está tentando pechinchar. Tomara que ele tenha desistido se não vou passar mais uma semana nesse hotel. Se isso acontecer, pelo menos tenho os melões para me consolar.
Senta um casal japonês na mesa á minha frente. Eles falam muito alto, mas finjo que não estou nem aí. Aliás, é impressionante a quantidade de asiáticos aqui; andando pelas ruas, dez em cada oito pessoas são chineses, coreanos, japoneses ou de qualquer outro país onde as pessoas tem olhos puxados. Maurice, meu amigo, disse que tinha a ver com a queda dos Tigres Asiáticos, a maioria deles vieram para cá então, onde havia mais oportunidade. É... quando a situação aperta não há nacionalismo que aguente.
Quem sou eu para falar deles. Eu mesmo saí de meu confortável, mas paupérrimo país para viver em Antióquia. Não que eu gostasse muito de meu país, mas era meu país, eu nasci ali. Pensando bem, acho que isso nem importa mais. Afinal, é apenas uma pedaço da crosta terrestre com pessoas em cima. De qualquer maneira, mesmo não gostando tanto assim de minha terra natal, decididamente não gosto de Antióquia também. É uma cidade enorme onde tudo parece ruína, quando você passeia pelas ruas é inevitável sentir um cheiro de óleo queimado e peixe, as pessoas só estão interessadas no seu dinheiro, dê você á eles voluntária ou involuntariamente. Que beleza há aí? Antióquia, ao meu ver, é o fim do poço da Humanidade.
E, veja bem, até uns trinta anos atrás era um monte de casas de alvenaria se diluindo á cada chuva ácida de verão. Se não fosse por esse enorme lixão no seu subsolo isso aqui continuaria sendo um deserto de veraneio. Antióquia... o maior ferro-velho da Historia.
Acabou o melão, que pena! Bem, pelo menos os japoneses pararam de berrar um para o outro. Odeio quando a pessoa termina de comer o que tem que comer e fica na mesa do restaurante sem fazer nada, olhando para o ponto cego das coisas, mas é exatamente o que estou fazendo agora. Se estivesse com a boca aberta seria o mesmo que ver um jacaré na beira do rio depois do almoço. É melhor me levantar e fazer algo, chega de tanta letargia.
Atrás da minha mesa está uma enorme janela, onde vão os casais de namorados (endinheirados, é claro) trocar beijos e admirar essa bela paisagem que é Antióquia. Mesmo com sua cor onipresente de ferrugem, a cidade tem um certo charme quando vista assim. Talvez seja algum efeito da janela, sei lá. A cada dia os edifícios crescem mais um metro e não é possível mais ver suas bases. A nuvens atrapalham a visão. Na realidade não são nuvens de verdade, mas gases tóxicos expelidos pelas fábricas e pelo lixo encrustado na antiga superfície da cidade. Vez ou outra algum maluco louco por adrenalina tenta descer até lá e voltar sem ficar inconsciente e acaba intoxicado.
Estranho... eu não tinha visto aquele prédio amarelo ali. Não é uma fábrica, deve ser mais um restaurante ou então um bordel. O alarme de meu relógio dispara, está na hora, tenho que subir e fechar o negócio. É um poço de chorume, estamos tentando vender para dois sheiks. Um já concordou com a nossa divisão nos lucros o outro ainda está tentando pechinchar. Tomara que ele tenha desistido se não vou passar mais uma semana nesse hotel. Se isso acontecer, pelo menos tenho os melões para me consolar.
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Ave burocracia!
Burocracia é uma coisa fantástica, para não dizer outra coisa. Hoje, por exemplo, perdi toda minha manhã e parte da tarde esperando na fila de atendimento da faculdade e tentando explicar que eu existo (uma vez que o computador sacana alegava que não estava mais matriculado, na verdade, um conflito de grades curriculares gerou a pegadinha). Vejam só, daria até um belo contou ou no mínimo uma ótima tira.
Agora Kafka faz todo sentido...
Agora Kafka faz todo sentido...
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Brasil, país do steampunk
Vocês já vão entender o título. Estava eu parado no sinal quando pára ao meu lado um homem numa lambreta. Logo percebi meu erro ao classificar aquele veículo como lambreta. Na verdade o esqueleto lembrava uma lambreta antiga, mas á segunda olhada você via elementos de uma bicicleta (o guidon, a corrente) e outros de uma carroça (onde ficaria o assento do carona). Além disso, havia partes feitas de madeira, se não me engano de cerejeira, que lembravam gavetas, onde o dono deveria guardar ferramentas ou compras. Entre o guidon e o assento do motorista, ficava uma plataforma de madeira, onde ele estava apoiando um butijão de gás.
O sinal abriu e a pseudo-lambreta disparou deixando para trás um rastro de fumaça danado, o que me deixou em dúvida se era movido á gasolina ou á vapor. Se for realmente á vapor já sabemos quem será o patrono da futura Loja Steampunk Amazônica.
Mas o caso é seguinte: provavelmente invenções como essas não são nada raras e devem existir pelo Brasil todo, aliás. Ora, basta nos lembrarmos do Tião Coió e suas coiobólicas. O inventor brasileiro, aquele que vive aí por esse mundaréu entre o anonimato e a chacota da comunidade, une á criatividade á experiência, criando portanto obras que denunciam a sua herança, muitas vezes de artesão, com o que há de mais novo por aí, as novas bugigangas que surgem como moda. O resultado é uma coisa que se aproxima, fazendo uma pequena abstração, do steampunk, ao fundir passado e futuro, criando algo alternativo. Ora, uma lambreta-bicicleta-carroça (possivelmente á vapor) seria possível no início do século passado, por que não?
Nós que vivemos na "periferia" do mundo temos as melhores lições de steampunk nem sempre na História ou na Liteatura, mas no cotidiano, nos contrastes e personagens que habitam nossas cidades.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Dusek e o apocalipse
Nessa onda de "2012, fim do mundo" me lembrei no meio de tanta coisa relativa ao apocalipse que produzimos nos últimos anos da contribuição de Eduardo Dusek, a música Nostradamus.
Debochando da promessa de fim do mundo em 1999 feita pelo profeta Nostradamus, Dusek fala de um dia em que o mundo acabou (o que o narrador da música só percebe quando liga pra alguém e ninguém atende, afinal os prédios caindo e as pessoas correndo está dentro do normal).
Nostradamus
Eduardo Dusek
Naquela manhã
Eu acordei tarde, de bode
Com tudo que sei
Acendi uma vela
Abri a janela
E pasmei
Alguns edifícios explodiam
Pessoas corriam
Eu disse bom dia
E ignorei
Telefonei
Pr'um toque tenha qualquer
E não tinha
Ninguém respondeu
Eu disse: "Deus, Nostradamus
Forças do bem e da maldade
Vudoo, calamidade, juízo final
Então és tu?"
De repente na minha frente
A esquadria de alumínio caiu
Junto com vidro fumê
O que fazer? Tudo ruiu
Começou tudo a carcomer
Gritei, ninguém ouviu
E olha que eu ainda fiz psiu!
O dia ficou noite
O sol foi pro além
Eu preciso de alguém
Vou até a cozinha
Encontro Carlota, a cozinheira, morta
Diante do meu pé, Zé
Eu falei, eu gritei, eu implorei:
"Levanta e serve um café
Que o mundo acabou!"
Debochando da promessa de fim do mundo em 1999 feita pelo profeta Nostradamus, Dusek fala de um dia em que o mundo acabou (o que o narrador da música só percebe quando liga pra alguém e ninguém atende, afinal os prédios caindo e as pessoas correndo está dentro do normal).
Nostradamus
Eduardo Dusek
Naquela manhã
Eu acordei tarde, de bode
Com tudo que sei
Acendi uma vela
Abri a janela
E pasmei
Alguns edifícios explodiam
Pessoas corriam
Eu disse bom dia
E ignorei
Telefonei
Pr'um toque tenha qualquer
E não tinha
Ninguém respondeu
Eu disse: "Deus, Nostradamus
Forças do bem e da maldade
Vudoo, calamidade, juízo final
Então és tu?"
De repente na minha frente
A esquadria de alumínio caiu
Junto com vidro fumê
O que fazer? Tudo ruiu
Começou tudo a carcomer
Gritei, ninguém ouviu
E olha que eu ainda fiz psiu!
O dia ficou noite
O sol foi pro além
Eu preciso de alguém
Vou até a cozinha
Encontro Carlota, a cozinheira, morta
Diante do meu pé, Zé
Eu falei, eu gritei, eu implorei:
"Levanta e serve um café
Que o mundo acabou!"
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Brasil, país do futuro
Atrasados? Mas temos tv digital de graça! Arcaicos? Mas usam palm top nos censos do IBGE!
Francamente, acho que isso de "país atrasado" é intriga da oposição...
Francamente, acho que isso de "país atrasado" é intriga da oposição...
Afoturismos VII
O homem assina o contrato é levado até uma câmara onde recebe uma injeção. Depois levanta e volta á sala de onde saiu.
-Então é só isso?
-Sim.
-Quer dizer que agora eu sou imortal?
-Bem, a não ser que dêem um tiro na sua cabeça...
-Como assim?
-Veja bem, você assinou o pacote médio, quer dizer que você é imune á qualquer vírus ou bactéria, ou seja, você é imortal bacteriologicamente.
-Mas se eu for atropelado ou atingido por uma bala?
-Aí o senhor morrerá.
-Vocês não podem fazer nada?
-Nós temos o pacote plus que cobre precisamente acidentes.
-Quanto custa?
-12 milhões de conchas.
Pensa um pouco.
-Eu vou querer!
Passa o cartão.
-Pronto, agora o senhor tem o pacote plus! Jacques, leve esse senhor para o cofre!
-O quê? Como assim cofre?
-O senhor ficará trancado num cofre, á salvo de qualquer eventual acidente. Não se preocupe há uma ração lá e água esperando pelo senhor. Boa sorte!
Jacques pega o homem pelo braço e o carrega.
-Então é só isso?
-Sim.
-Quer dizer que agora eu sou imortal?
-Bem, a não ser que dêem um tiro na sua cabeça...
-Como assim?
-Veja bem, você assinou o pacote médio, quer dizer que você é imune á qualquer vírus ou bactéria, ou seja, você é imortal bacteriologicamente.
-Mas se eu for atropelado ou atingido por uma bala?
-Aí o senhor morrerá.
-Vocês não podem fazer nada?
-Nós temos o pacote plus que cobre precisamente acidentes.
-Quanto custa?
-12 milhões de conchas.
Pensa um pouco.
-Eu vou querer!
Passa o cartão.
-Pronto, agora o senhor tem o pacote plus! Jacques, leve esse senhor para o cofre!
-O quê? Como assim cofre?
-O senhor ficará trancado num cofre, á salvo de qualquer eventual acidente. Não se preocupe há uma ração lá e água esperando pelo senhor. Boa sorte!
Jacques pega o homem pelo braço e o carrega.
Assinar:
Postagens (Atom)