(plágio é crime:Lei n. 9.610/98. Se quiser reproduzir em algum lugar esses textos, não se esqueça dos créditos.)
entenda:
futurismos aforismos
afoturismos
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Afoturismos IV
terça-feira, 22 de junho de 2010
Afoturismos III
-Boa tarde.
Aderaldo, eu gostaria que você nos explicasse melhor qual o objetivo da sua associação.
-Bem, Aníbal, eu gostaria de ressaltar que nossa organização é um movimento social como os demais, o que muda é apenas nosso objetivo. E qual seria ele? Bem, nossa missão é proteger a prática cultural do canibalismo.
Mas não é uma prática muito... bizarra, por assim dizer?
-Veja bem, Aníbal, o canibalismo é uma coisa muito normal. Ora, não existem pessoas que comem as unhas? Que bebem a urina para rejuvenescer? Isso também é canibalismo.
E quanto á comer carne humana?
-Bem, esse é o pessoal mais hardcore do movimento. Mas, mesmo assim, estamos numa democracia, temos o direito garantido por lei de comer o que quisermos, não é?
Mas isso não viola um pouco o respeito aos demais seres humanos?
-Claro que não. Veja bem, nós temos um fundo especial para onde são enviados membros de pessoas amputadas.
E é suficiente para todos os membros da organização?
-Sim, ainda mais agora que fizemos um acordo com o Clube dos Apotmenofílicos.
Apotmnenofílicos?
-Isso, é todo aquele que sente prazer em se amputar.
Isso não parece meio macabro?
-Bem, gosto não se discute...
Com certeza...
Steampunk: o que é isso?

segunda-feira, 21 de junho de 2010
Tempos de Vitória

Por que o steampunk é sempre associado á era Vitoriana? Para respondermos a essa questão primeiro temos que responder á outra: o que é a Era Vitoriana? A Era Vitoriana compreende o período de 1837 á 1901 e é assim chamada por englobar o longo reinado da Rainha Vitória.
Essa é a verdadeira Rainha Vitória (1801-1901).Vitória subiu ao trono numa época em que o imperialismo britânico estava se consolidando, tanto na Ásia(Índia) como na África (destaque para a compra do Canal de Suez).A Revolução Industrial também estava se desenvolvendo. mesmo que as condições de trabalho não tenham melhorado muito na maioria dos complexos industriais, pelo menos agora havia uma legislação trabalhista sendo criada no Parlamento. A prosperidade financeira da Inglaterra fez surgir uma classe média mais forte, nem por isso menos conservadora. Na política, estamos em um período de conciliação entre os adversários de sempre, os Whigs(conservadores) e os Thories(liberais).
Além disso há que salientar a profusão de "aventureiros" britânicos no período, inaugurando uma nova classificação no mundo da aventura: o aventureiro vitoriano. Geralmente, homens de boa formação que prezam pelo cavalheirismo e idolatram a ação, se enveredando pelos locais mais exóticos,pelo prazer da aventura (como todo bom aventureiro) e pela busca de fama. Nesse rol se encontram desde o fictício Lorde Roxton de O Mundo Perdido (Conan Doyle)até o famoso e misterioso Richard Burton (não, não é o ator de Cleópatra e o Manto Sagrado), que esteve no Brasil!
Richard Burton(1821-1890), orientalista, oficial da Marinha Britânica.
Na literatura temos o surgimento de poetas como W.B Yeats, a crítica social de Charles Dickens, as aventuras de Louis Stevenson e Arthur Conan Doyle,a ironia de Oscar Wilde e Bernard Shaw. Na ciência, vale destacar as teses de Darwin e Wallace sobre a evolução das espécies, as descobertas de Lorde Kelvin sobre a física e a temperatura, além é claro da evolução das máquinas á vapor. Na virada do século podemos ver automóveis já andando por Londres.
Resumindo a Era Vitoriana em uma palavra ela seria: euforia. Sim, foi uma euforia, principalmente para a classe média. Euforia é um elemento-chave da Belle Epoque. Além disso há que salientar a criação de uma idéia de progresso e a fé inabalável nele, principalmente através da Ciência.
Portanto, quando Bruce Sterling e William Gibson escolheram a Era Vitoriana como cenário de seu famoso livro The Difference Engine, considerado o Pai da Steampunk,não foi por acaso. Num contexto como esse de euforia, de desenvolvimento industrial, de aventureiros e de cientificismo, boas histórias são o que não faltam. Aliás, os próprios contemporâneos perceberam isso,H.G.Wells, Jules Verne, etc. Aliás, esse clima não era próprio da Inglaterra, ele era a atmosfera da maioria dos países da Europa na época. A Belle Epoque institucionaliza essa euforia.
É um ramo muito frutífero não só pelo que tem de belo e cativante, mas pelas tensões subterrãneas também, presentes, inclusive na própria Inglaterra vitoriana. Ora, a questão dos vagabundos, das péssimas condições de trabalho dos operários, do imperialismo na Ásia e África (basta lembrar da guerra dos Sipaios na Índia e a guerra dos Boêres na África do Sul, dentre tantas outras).
De qualquer maneira, a Era Vitoriana é uma época realmente muito interessante, cheia de mudanças, algumas drásticas outras não. Aliás, um dos maiores desafios dos escritores do gênero nos países não anglo-saxões é justamente o de desvincular o próprio gênero desse período, de tão enraizado que está com a Inglaterra vitoriana. Mas esse debate eu deixo para uma outra hora.
Afoturismos II
A cotação da água nas Bolsas de Valores através do mundo subiu bastante.
Política:
O Brasil cogita vender todo o Aquífero Guarani para pagar a dívida externa.
Cultura:
Sociedade civil organiza campanha "o aquífero é nosso!"
(retirado de um jornal do futuro)
Meu pai
Não me lembro do meu pai. Não me lembro do rosto dele. As fotos que minha mãe me mostra dele não me atiçam a memória, não adianta. Minha mãe morria com isso. Ela dizia que os homens pegaram meu pai porque ele fala a verdade e falava demais. Eu ficava com medo dos homens e de falar a verdade.
Minha mãe ia sempre na Junta Militar, perto da esquina de casa, saber do meu pai, mas eles diziam que ele não estava lá. Ela uma vez arrumou briga com um dos moços de lá, mas depois ela se acalmou. Minha mãe pedia para eu não me esquecer do meu pai, mas eu não conseguia lembrar dele.Ela apertava a minha mão bem forte e começava a chorar, pedindo para não esquecê-lo e eu não entendia.
Ela foi procurar mais informações sobre ele no cartório, porque ela queria provar que era casada e ganhar uma indenização do governo pelo menos para poder comprar comida e o material da escola. Mas nada, o governo dizia que ele não existia. Ela mostrava os documentos dele, mas nada. Ela ficava muito frustrada com isso, se trancava no quarto e só ouvia os soluços.
Eu comecei a pensar que meu pai não existia depois que uma amiga minha disse que a mãe dela havia dito que meu pai não existia e era invenção da minha mãe. Minha mãe andava meio estranha mesmo, talvez fosse loucura dela. Mas ela me mostrava as fotos. Quem era aquele homem então? Eu não entendia.
Nossos vizinhos não falavam mais conosco e meu avô e minha avò pararam de nos ver.Eu também achava isso muito estranho. Mamãe disse que era porque eles tinham medo de sumirem como aconteceu com papai. Não sei quem sumiria com as pessoas, mas de uma coisa tinha certeza: não era o bicho-papão. Mamãe ia sempre na Junta. Quem sabe as pessoas da Junta que sumiam com os outros. Eu começava a imaginar que dentro da Junta tinha um buraco negro, um portal onde eles jogavam as pessoas e elas sumiam.
Depois que conclui isso passei a me afastar de minha mãe,pois ela falava,brigava, criticava as pessoas da Junta muito.
Bem, os anos se passaram, eu cresci, fui para Faculdade, me afastei de minha mãe, me formei e casei. Um dia liguei a tv e estavam cobrindo o julgamento de Videla, Massera e demais militares que começaram com o novo regime em 1976. Um homem estava depondo. Era um homem muito calmo. Ele estava falando sobre como deixava ele e seu parceiro de cela sem comida na Junta. Seu parceiro era José Roberto Perrin. Era meu pai. Eu tive um choque. O resto do julgamento nem acompanhei, fiquei só pensando: então ele existiu! E falei: Meu pai. Nunca tinha falado essas duas palavras, muito menos o nome dele depois que fui para Faculdade. Imediatamente, lembrei da minha mãe. Ela estava certa, ele existiu. E até eu sumi com ele, sumi com ele da minha mente.Comecei a chorar.Era felicidade, culpa, sei lá, tudo isso.Meu pai voltou a existir depois de tantos anos. Meu pai.
minicontos II
Coronel Muricy gostava de escrever, nas horas vagas, pequenas piadinhas sobre o futuro. Quando inventaram o celular, ele se lembrou de que tinha previsto isso anos antes numa de suas piadinhas. Agora Muricy tem certeza que não nasceu para a carreira militar, mas para ser profeta.
O ATAQUE
"O plano é o seguinte: sairemos pelo bueiro enquanto estiverem dormindo e assim atacaremo-os de surpresa. Senhores, amanhã essa casa voltará a ser nossa!" Disse a barata.
ESTADISTA
Quando era criança, roubava as mangas do seu João e colocava a culpa no seu colega Henrique. Quando quebrava as janelas fingia que não era consigo. Tudo apontava para um futuro promissor na política.
O BOTÃO
-O senhor sabe por que está aqui?
-Sim, Meritissímo.
-O senhor tem ciência de que sua vida está em jogo aqui?
-Sim, Meritíssimo.
Na sua voz, um misto de serenidade e culpa. O juiz olhava-o com uma certa inquietação, não podia entender o motivo de tanta serenidade, muito menos de culpa.
-Sr. M, código 12-4b, residente do complexo K, o senhor está sendo acusado de apertar o botão vermelho e com isso exterminar 36 mil vidas. Como o senhor se declara?
-Culpado, Meritíssimo.
Culpado? Já tinha ouvido isso antes, mas sempre quando o acusado era confrontado com as provas forense e não lhe restava outra saída. Esse homem, no entanto, já de antemão, se declara culpado! Será encenação? O juiz busca em seus gestos alguma prova de teatralidade. Seu olhar distante parece uma das mais dissimuladas, mas ainda não tem total certeza.
Por mais que queria investigar o estranho comportamento do reú, o juiz tem que proferir a sentença.
-Sr. M, o senhor está condenado por homicídio em massa. Será sentenciado ao botão vermelho. Algum último desejo?
-Sim, eu gostaria de falar uma coisa...
Era isso, agora ele encenará todo um teatrinho. O juiz agora entendeu seus planos: ele quer ser um mártir. Bem, vamos ver até onde ele levará isso.
-Pode falar.
Seus olhos ficam mais agitados, tentam olhar para o juiz, olhar para as testemunhas. Suas mãos estão trêmulas. Na certa, é o peso da morte, de sua morte.
-Eu... sinto muito.
Envergonhados seus olhos voltam ao seu limbo e o corpo parece ter voltado a sua tímida serenidade.O juiz friamente aperta o botão vermelho e o homem cai do alçapão. Não se pode ver onde ele caiu, mas podemos ouvir seus gritos de dor se dissipando e um ligeiro cheiro de queimado penetra no tribunal. Mais uma vez a justiça foi feita, conclui o juiz.
Minicontos
Foi consultar o I Ching. "Prepare-se para o novo". Não entendeu.
No dia seguinte foi atropelado por um carro ecológico importado.
MONSTRO
Com medo do monstro debaixo da cama, Dinho correu para a cama dos pais. Eles garantiram que ali estaria seguro. Estava quase fechando os olhos quando ouviu aquela voz cavernosa: Boa tentativa, Dinho...
MÃE
"Cuidado aí, meu filho! E nunca saia de casa sem seu casaco!"
Riu em silêncio do outro lado da linha, no Marrocos.