Sabe, um dos grandes problemas da humanidade através dos séculos era o trabalho. Não sou um apologista do ócio, não estou falando do trabalho em si, mas das péssimas condições de trabalho que sempre existiram em qualquer profissão, compreende? Por exemplo, um mineiro está submetido á péssimas condições de trabalho, pode morrer com efizema pulmonar com 10 anos de serviço ou em um desabamento. Ninguém quer fazer esse trabalho, mas alguém tem que fazer esse trabalho. E aí como ficamos? Temos que aceitar esse ônus.
Mas no futuro as coisas irão mudar. Péssimas condições de trabalho são coisas que não sabemos o que é há um tempo. As profissões existentes agora não nos oferecem tanto riscos assim. As pessoas podem fazer o quiser, o que não quer dizer que não existam pessoas que façam determinada tarefa só para receber um dinheirinho, não. O que quero dizer é que esse trabalho perigoso e arriscado acabou. Sim, acabou. Se arriscar para quê? Não precisamos mais nos arriscar; as formigas fazem isso para gente. Pode parecer meio ridículo, mas é verdade: formigas. Modifique-a geneticamente e implante um chip em sua cabeça que emita ordens e pronto! Pode parecer meio insensível mandar esses pequenos e inocentes animaizinhos limparem esgotos ou abrirem túneis de exploração com dinamite e morrerem por nós, mas elas aguentam. Afinal, elas foram feitas para isso; tem exoesqueleto, né?
(plágio é crime:Lei n. 9.610/98. Se quiser reproduzir em algum lugar esses textos, não se esqueça dos créditos.)
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domingo, 30 de janeiro de 2011
Pecado
Cidade pequena. O centro da cidade, urbanística e simbolicamente, era a Igreja. O padre era quase o prefeito.
O menino não era daqueles levados, mas fazia parte da turma dos levados. Ele e os outros garotos colocavam bombinhas no rabo dos gatos, tentavam levantar a saia das beatas em dia de procissão Coisas do tipo.
O menino levava bronca da mãe e do padre quando era pego. Ás vezes nem tinha feito nada, mas só por estar junto com os garotos já apanhava. Pior era o castigo dado pelo padre: rezar cem padre-nossos e mil ave-marias ajoelhado no milho. O padre já tinha um pote especial com milho para os garotos. Sumir com esse pote era um dos maiores desejos dos garotos.
Um dia seus amigos estavam todos reunidos em torno do mais atentado da turma. Não estavam correndo, jogando bola de gude ou subindo nas árvores. Então deviam estar fazendo algo muito especial. O menino se aproximou e descobriu. Eram cartões de mulheres peladas. A maioria era morena. O cabeça da turma, aquele que achou o baralho inclusive, ficou logo com a loira e a mais peituda. Mas vendeu o resto do baralho. Vendeu não, trocou com os outros por alguma coisa. O menino conseguiu uma por um pote de geléia de jabuticaba da sua mãe. Era uma morena com longos cílios, encostada em uma coluna com seus braços por cima da cabeça deixando seus seios assim completamente á vontade.
Enquanto ninguém via, ele pegava o cartão e admirava a sua morena. Ficava pensando se todas as mulheres eram assim por debaixo do vestido. Passava alguém na rua, escondia. O menino passou a olhar as beatas de outro jeito e passou olhar a menina do outro lado da rua de outro jeito. Era morena também, não tinha os cílios compridos, mas tinha olhos grandes. Aliás, parecia muito com a sua morena. Talvez fosse parente dela.
Apesar do sermão do padre dessa semana ser direcionado ás roupas “ousadas” de uma moça que morava perto do córrego, parecia ter sido feito para o menino. O padre falava de revelar o corpo, “colocar nosso corpo á mostra para todos verem como em uma banca de peixes”. Isso era pecado! O menino não sabia o que era pecado, mas sabia quais eram eles: avareza, ira, soberba, preguiça, gula, inveja e luxúria. Na cabeça do menino, pecado era aquilo que as pessoas fazem de ruim e escondem. O que ele e os garotos faziam era diferente, era brincadeira. Mas andar com poucas roupas ou nenhuma era pecado, “pecado de quem faz e de quem vê”. A morena então estava pecando. E o menino também! “Vocês sabem o destino dos pecadores? O caldeirão do inferno!Sabem como é o caldeirão do inferno? Ah, meus amigos não queiram saber! Um imenso caldeirão cheio de lodo e óleo fervente, onde estão todos os pecadores sendo puxados pelos pés por demônios no seu fundo que a cada dia mordem mais e mais seus membros. E isso por toda a eternidade!” O menino, como a maioria dos garotos na Igreja, estava quase chorando.
No mesmo dia quando chegou em casa, resolveu dar um jeito na sua morena. Rasgou a carta em mil pedaços, até não poder mais ver qualquer pedaço do corpo da mulher. Jogou tudo num buraco que havia no canto da parede. Na falta de milho, rezou inúmeros padre-nossos ajoelhado em suas bolinhas de gude. No dia seguinte, olhou bem o buraco para ter certeza de que ali estava a prova do crime. Depois da aula foi direto á Igreja se confessar com o padre. O padre pediu que fosse breve, mas já estava desconfiado. O menino contou sobre a morena. O padre queria saber como ele conseguiu ela, o menino contou. A reação do sacerdote foi colérica. O menino já estava chorando antes de terminar a confissão; não queria ficar no caldeirão do inferno. O padre passou a pena: 100 ave-marias e 110 padre-nossos ajoelhado no milho. O menino queria fazer ali mesmo, o padre não deixou. Disse que nesse caso seria em casa, no seu quarto. O menino foi, sabendo que ele e seus amigos ficariam com a bunda assada de tanta chinelada.
Depois de cumprir seu castigo, ficou assustado novamente, mas não saiu de casa. Estava esperando sua mãe chegar com aquele chinelo na mão. Depois de um tempo ela chegou, era tarde. Chegou dizendo que uma amiga sua, mãe de um de seus colegas, descobrira com seu filho cartas de baralho de mulher pelada. O garoto disse que tinha roubado do gabinete do padre. Perguntou se o menino sabia de alguma coisa e ele, confuso, negou, afinal já tinha fugido do caldeirão do inferno e mentira não é um pecado capital.
O padre também negou, mas o caso ficou na boca de todos por muito tempo. Algumas beatas se afastaram do padre depois disso e sempre que passavam por ele olhavam com medo. O menino olhava para o padre como se fosse colega de mais uma de suas artes e o padre olhava para ele como se não soubesse de nada e, por vezes, de quem pedia para não dizer nada. Numa cidade que se comunicava mais por olhares do que por palavras, o olhar do menino para sua coleguinha morena desde então também denunciava algo. Algo que com o tempo se consumou. Se é pecado ou não, o menino não sabia, mas que valia a pena enfrentar o caldeirão do inferno por isso, valia.
O menino não era daqueles levados, mas fazia parte da turma dos levados. Ele e os outros garotos colocavam bombinhas no rabo dos gatos, tentavam levantar a saia das beatas em dia de procissão Coisas do tipo.
O menino levava bronca da mãe e do padre quando era pego. Ás vezes nem tinha feito nada, mas só por estar junto com os garotos já apanhava. Pior era o castigo dado pelo padre: rezar cem padre-nossos e mil ave-marias ajoelhado no milho. O padre já tinha um pote especial com milho para os garotos. Sumir com esse pote era um dos maiores desejos dos garotos.
Um dia seus amigos estavam todos reunidos em torno do mais atentado da turma. Não estavam correndo, jogando bola de gude ou subindo nas árvores. Então deviam estar fazendo algo muito especial. O menino se aproximou e descobriu. Eram cartões de mulheres peladas. A maioria era morena. O cabeça da turma, aquele que achou o baralho inclusive, ficou logo com a loira e a mais peituda. Mas vendeu o resto do baralho. Vendeu não, trocou com os outros por alguma coisa. O menino conseguiu uma por um pote de geléia de jabuticaba da sua mãe. Era uma morena com longos cílios, encostada em uma coluna com seus braços por cima da cabeça deixando seus seios assim completamente á vontade.
Enquanto ninguém via, ele pegava o cartão e admirava a sua morena. Ficava pensando se todas as mulheres eram assim por debaixo do vestido. Passava alguém na rua, escondia. O menino passou a olhar as beatas de outro jeito e passou olhar a menina do outro lado da rua de outro jeito. Era morena também, não tinha os cílios compridos, mas tinha olhos grandes. Aliás, parecia muito com a sua morena. Talvez fosse parente dela.
Apesar do sermão do padre dessa semana ser direcionado ás roupas “ousadas” de uma moça que morava perto do córrego, parecia ter sido feito para o menino. O padre falava de revelar o corpo, “colocar nosso corpo á mostra para todos verem como em uma banca de peixes”. Isso era pecado! O menino não sabia o que era pecado, mas sabia quais eram eles: avareza, ira, soberba, preguiça, gula, inveja e luxúria. Na cabeça do menino, pecado era aquilo que as pessoas fazem de ruim e escondem. O que ele e os garotos faziam era diferente, era brincadeira. Mas andar com poucas roupas ou nenhuma era pecado, “pecado de quem faz e de quem vê”. A morena então estava pecando. E o menino também! “Vocês sabem o destino dos pecadores? O caldeirão do inferno!Sabem como é o caldeirão do inferno? Ah, meus amigos não queiram saber! Um imenso caldeirão cheio de lodo e óleo fervente, onde estão todos os pecadores sendo puxados pelos pés por demônios no seu fundo que a cada dia mordem mais e mais seus membros. E isso por toda a eternidade!” O menino, como a maioria dos garotos na Igreja, estava quase chorando.
No mesmo dia quando chegou em casa, resolveu dar um jeito na sua morena. Rasgou a carta em mil pedaços, até não poder mais ver qualquer pedaço do corpo da mulher. Jogou tudo num buraco que havia no canto da parede. Na falta de milho, rezou inúmeros padre-nossos ajoelhado em suas bolinhas de gude. No dia seguinte, olhou bem o buraco para ter certeza de que ali estava a prova do crime. Depois da aula foi direto á Igreja se confessar com o padre. O padre pediu que fosse breve, mas já estava desconfiado. O menino contou sobre a morena. O padre queria saber como ele conseguiu ela, o menino contou. A reação do sacerdote foi colérica. O menino já estava chorando antes de terminar a confissão; não queria ficar no caldeirão do inferno. O padre passou a pena: 100 ave-marias e 110 padre-nossos ajoelhado no milho. O menino queria fazer ali mesmo, o padre não deixou. Disse que nesse caso seria em casa, no seu quarto. O menino foi, sabendo que ele e seus amigos ficariam com a bunda assada de tanta chinelada.
Depois de cumprir seu castigo, ficou assustado novamente, mas não saiu de casa. Estava esperando sua mãe chegar com aquele chinelo na mão. Depois de um tempo ela chegou, era tarde. Chegou dizendo que uma amiga sua, mãe de um de seus colegas, descobrira com seu filho cartas de baralho de mulher pelada. O garoto disse que tinha roubado do gabinete do padre. Perguntou se o menino sabia de alguma coisa e ele, confuso, negou, afinal já tinha fugido do caldeirão do inferno e mentira não é um pecado capital.
O padre também negou, mas o caso ficou na boca de todos por muito tempo. Algumas beatas se afastaram do padre depois disso e sempre que passavam por ele olhavam com medo. O menino olhava para o padre como se fosse colega de mais uma de suas artes e o padre olhava para ele como se não soubesse de nada e, por vezes, de quem pedia para não dizer nada. Numa cidade que se comunicava mais por olhares do que por palavras, o olhar do menino para sua coleguinha morena desde então também denunciava algo. Algo que com o tempo se consumou. Se é pecado ou não, o menino não sabia, mas que valia a pena enfrentar o caldeirão do inferno por isso, valia.
Figura
As pessoas me pintam
mas meu semblante
está bem guardado
para mim e somente a mim.
E agradeço ao sempre ao espelho por isso.
mas meu semblante
está bem guardado
para mim e somente a mim.
E agradeço ao sempre ao espelho por isso.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Como era verde o meu campo
-Dia brabo, em!
Comentou o senhor ao lado de Aldano, mas ele fingiu não ter ouvido nada. O dia estava ruim mesmo, esse comentário é mais do que óbvio. Afinal, qual dia em um campo de trabalho não é ruim?
Aldano andou á frente, em direção á seu colega Braz. Gostava dele; não era um cara brilhante, mas era um bom ouvinte e Aldano tinha muito o que falar. Tirando isso tinha um otimismo e um entusiasmo infernal.
-E aí, cara? Tudo bem? O sol hoje tá brabo, né?
Fingiu que não ouviu a última parte da fala do colega e começou a falar como se já estivesse impaciente.
-Tá, tá bem sim, Braz. Olha, você pensou naquilo que te disse ontem?
-O quê?
-Aquilo, cara...
Olhava para os lados. Não era fácil alguém se esconder na plantação; a vegetação era rasteira e as plantas maiores eram muito finas e frágeis. A única pessoa por perto era o velho que comentou sobre o dia lá atrás. É um velho, mas vai que ele tem boa audição?
-Aquilo!!
Braz se lembrou da conversa de ontem na cela.
-Ah, aquilo! Sei, sei... Cara, eu acho isso meio perigoso, eu te disse...
O velho se afastara, fora arar a terra no final da canaleta.
-Você prefere ficar aqui?
Braz vai um pouco adiante para colher uma fruta que parece ter nascido antes do esperado, envergando a planta até o chão.
-Mas, pensa bem: você sai daqui, vai viver lá fora como? O mundo muito, cara! Aqui pelo menos a gente tem comida, tem água, tem casa...
Aldano interrompe bruscamente.
-Mas aqui não tem liberdade! Aqui você não pode fazer mais nada, aonde eu quero ir não posso, tenho que ficar aqui arando essas plantas da porra nesse sol fodido! Você acha isso legal?
Braz fica em silêncio; não tem resposta. Aldano se acalma e conta mais sobre seu plano.
-Amanhã, eu vou fazer o esquema: vou me jogar no meio do sorgo e esperar a debulhadora me pegar...
-Cara, isso é perigoso..
-Perigoso nada! Antes de cair no processador eu me agarro na tubulação e espero eles guardarem a debulhadora na garagem. Aí eu saio. Daí em diante é fácil. Ninguém vigia a garagem, sair de lá vai ser mole. Eu preciso saber se você vem comigo, porque aí você vai ter que ser rápido; se não agarrar antes de chegar ao processador você vira carne moída.
-Num sei não...
-Deixa de ser cagão, cara!
Aldano maneira a voz. O velho, lá longe, no fim da canaleta, olha, mas não se assusta; ele conhece o caráter brigão de Aldano, na certa deve estar brigando com o Braz por ter jogado água no seu sapato.
-To te convidando, to te oferecendo a liberdade! Pensa melhor.
Braz olha para o chão. Não está mais animado como antes, isso é claro. O cara é conformista demais, pensa Aldano.
-Tá...
Responde o seu colega depois de um minuto de silêncio, enquanto arranca da canaleta uma enorme lesma atraída pela água de onde saem as plantas. Logo em seguida, joga um elemento higienizador em pó no lugar. Aldano se anima.
-É, pensa um pouco e me dá a resposta na janta, viu? Viu?
-Sim.
Braz não quer ir, mas não saber dizer não. Aldano já se zanga com seu entusiasmo aqui, imagine então com uma declaração aberta de que não quer sair do campo de trabalho. De alguma forma, Braz gosta de estar aqui. Gosta de trabalhar. Ele não pensa no que há lá fora, porque acha que não resta mais nada para ele lá. Não havia muito antes. Aqui não, ele tem um trabalho, ele tem algo para se ocupar. Ele faz bem feito, ele é reconhecido - já foi cinco vezes seguidas o trabalhador do mês, ganhando de presente cinco medalhas de zinco. Além disso, ele está trabalhando por algo maior. Se não fosse pelos alimentos produzidos pelos prisioneiros aqui no campo o país não teria atravessado a crise de fome. As frutas, legumes, peixes e aves que Braz colhe e trata salvou milhares de pessoas e está deixando elas mais saudáveis a cada dia.
Um veículo de metal de forma arredondado que move-se como uma carroça, com um guarda em seu dorso, passa perto da canaleta. Aldano se afasta, mas lentamente, como se estivesse olhando a água das outras plantas. Antes de ir ele dá um tapa nas costas do amigo e diz:
-Te vejo no jantar então!
O dia demorou a passar. Geralmente passa rápido para Braz, sempre ocupado com o pavilhão dos peixes ou com as plantações. Mas a proposta de Aldano o fez pensar. Pensar demais. Braz olhava as canaletas, os tanques dos peixes, as gaiolas das galinhas. Um olhar melancólico. Um olhar de quem se despede. Braz não sabe dizer não, ainda mais para seu amigo - o único -, então é certo que irá fugir amanhã, ou pelo menos tentar.
Jantar. Nunca ele temeu tanto assim a hora do jantar. Depois de tomar o habitual banho, Braz seguia com os outros prisioneiros para o refeitório. Lá podia-se comer parcela do que se produzia ali: frango com vegetais, peixe com ervas, coisas do tipo. Nos primeiros tempos, tudo o que havia de mais podre era servido aqui. Agora não.
Braz vai para sua habitual mesa. Aldano está lá esperando. Está com o nariz roxo, na certa brigou com alguém de novo.
-Então?
Aldano espera pelo sim e o obtém. Um sim nervoso, mas Aldano nem se importa.
-É isso aí, cara! Assim que se fala!
Braz não parece muito entusiasmado, mas recebe um tapão nas costas.
-Quando estivermos lá fora eu vou te levar pra conhecer minha cidade. Não que seja bonita, sabe, mas lá tem um dos melhores puteiros da região. Eu vou te apresentar alguém... Dona Jezebel! Ahahah.
Aldano ria, enquanto mastiga um punhado de arroz integral e milho. Braz apenas observava os grãos de milho que saiam de sua boca caírem na mesa ou no chão.
-Depois vamos ver o mar, cara. Você não sabe quanta falta eu sinto do mar, cara! Você já viu o mar?
-Não...
-Você vai ver, vai se impressionar. É como uma lagoa grande, só que mais escura e mais agitada. Você já viu uma lagoa, né?
-Não...
-Puta merda! Aonde você vivia? Não ter mar dá pra entender, mas não ter lagoa...
Enquanto falava Braz já sofria o desgosto de enfrentar o mundo de novo. Mas dessa vez, pelo menos, ele estaria com o amigo. Aldano, por sua vez, estava já sentindo o sabor da liberdade. Sorria, entre uma garfada e outra. Os presos ao lado estavam desconfiados; esse homem nunca ri! Aldano gostava de Braz. O via como um cachorro ou uma criança. Na cidade, lhe ensinaria o que é viver realmente.
Braz percebia pela primeira vez que a liberdade vinha antes de sua amizade. Isso o deu mais medo. Afinal, Aldano e ele fogem, ficam livres e seu amigo vai querer se esbaldar, esquecendo fácil fácil o companheiro. Mas já estava feito, eles fugiriam amanhã.
A noite demorou a passar para os dois: um, por ansiedade, outro, por medo. Chegou a hora: levantaram-se, vestiram seus uniformes cinzas e foram para o trabalho. Braz carrega consigo, debaixo do uniforme suas preciosas medalhas de zinco. Entraram na fila para a plantação de sorgo. Eles e os demais trabalhadores foram levados por um imenso caminhão achatado que apitava até a plantação. Lá, quatro debulhadoras os esperavam. Era difícil lidar com essa máquina. É necessário que dois homens fiquem na caldeira, enquanto dois controlam na frente seus movimentos. Há o supervisor que vigia o processo todo, passando por todo canto da enorme máquina. Aldano e Braz não eram para estar aqui, mas como há sempre mudanças de última hora o supervisor demorará a perceber isso e até os inspetores descobrirem o erro e chegarem até essa plantação eles já estarão dentro da máquina.
Aldano seguido por seu fiel colega se aproximam da seção de armazenamento. Ambos espiam. Ninguém por perto. Aldano se joga no mar de sorgo. Braz hesita por um instante, mas pula. Rapidamente, se escondem no cereal. Respirar está difícil, mas dá pra aguentar.
A plataforma onde estão começa a inclinar, jogando todo o seu conteúdo em um enorme buraco. Os fugitivos (ou candidatos á fugitivos) descem pelo encanamento da máquina como se fosse um tobogã. Aldano tenta achar alguma fresta ou algum vão na tubulação onde possa se agarrar. Conforme avançam os vão se tornam mais salientes. Aldano se segura em um deles. Braz ainda está tentando. A cabeça está a mil: cidade, puteiro, polícia, etc. Mas a mão agarra alguma coisa. O sorgo ainda está caindo. Já se pode ouvir o processador amassando os grãos e até sentir o seu calor. O vento ainda circula na tubulação. Conseguimos, diz Aldano. Braz só consegue ver na escuridão as luzes da cidade, aquele inferno. Um rapaz sozinho, cheio de fome. Quando sair dessa tubulação, Braz estará sozinho de novo. Não é possível! Não pode acontecer, pensa. Mas agora é tarde para voltar. Talvez não, pensa. Ele ainda pode continuar no campo, ele pode conseguir não sair do campo. É simples. É só seguir a tubulação.
-BRAAZ!...
O sorriso vira grito: seu fiel escudeiro escorregara para a morte. Escorregou não, deve ter se soltado. O merdinha se soltou, pensou Aldano, mas não no habitual tom de reprovação. Era mais um lamento. Não ouviu nem gritos de agonia, o idiota devia estar sorrindo. Na esteira, o laranja dos grãos tornava-se vermelho, uma pasta vermelha. A única coisa que se podia distinguir dessa pasta eram pequenos objetos luminosos. Medalhas de zinco.
Comentou o senhor ao lado de Aldano, mas ele fingiu não ter ouvido nada. O dia estava ruim mesmo, esse comentário é mais do que óbvio. Afinal, qual dia em um campo de trabalho não é ruim?
Aldano andou á frente, em direção á seu colega Braz. Gostava dele; não era um cara brilhante, mas era um bom ouvinte e Aldano tinha muito o que falar. Tirando isso tinha um otimismo e um entusiasmo infernal.
-E aí, cara? Tudo bem? O sol hoje tá brabo, né?
Fingiu que não ouviu a última parte da fala do colega e começou a falar como se já estivesse impaciente.
-Tá, tá bem sim, Braz. Olha, você pensou naquilo que te disse ontem?
-O quê?
-Aquilo, cara...
Olhava para os lados. Não era fácil alguém se esconder na plantação; a vegetação era rasteira e as plantas maiores eram muito finas e frágeis. A única pessoa por perto era o velho que comentou sobre o dia lá atrás. É um velho, mas vai que ele tem boa audição?
-Aquilo!!
Braz se lembrou da conversa de ontem na cela.
-Ah, aquilo! Sei, sei... Cara, eu acho isso meio perigoso, eu te disse...
O velho se afastara, fora arar a terra no final da canaleta.
-Você prefere ficar aqui?
Braz vai um pouco adiante para colher uma fruta que parece ter nascido antes do esperado, envergando a planta até o chão.
-Mas, pensa bem: você sai daqui, vai viver lá fora como? O mundo muito, cara! Aqui pelo menos a gente tem comida, tem água, tem casa...
Aldano interrompe bruscamente.
-Mas aqui não tem liberdade! Aqui você não pode fazer mais nada, aonde eu quero ir não posso, tenho que ficar aqui arando essas plantas da porra nesse sol fodido! Você acha isso legal?
Braz fica em silêncio; não tem resposta. Aldano se acalma e conta mais sobre seu plano.
-Amanhã, eu vou fazer o esquema: vou me jogar no meio do sorgo e esperar a debulhadora me pegar...
-Cara, isso é perigoso..
-Perigoso nada! Antes de cair no processador eu me agarro na tubulação e espero eles guardarem a debulhadora na garagem. Aí eu saio. Daí em diante é fácil. Ninguém vigia a garagem, sair de lá vai ser mole. Eu preciso saber se você vem comigo, porque aí você vai ter que ser rápido; se não agarrar antes de chegar ao processador você vira carne moída.
-Num sei não...
-Deixa de ser cagão, cara!
Aldano maneira a voz. O velho, lá longe, no fim da canaleta, olha, mas não se assusta; ele conhece o caráter brigão de Aldano, na certa deve estar brigando com o Braz por ter jogado água no seu sapato.
-To te convidando, to te oferecendo a liberdade! Pensa melhor.
Braz olha para o chão. Não está mais animado como antes, isso é claro. O cara é conformista demais, pensa Aldano.
-Tá...
Responde o seu colega depois de um minuto de silêncio, enquanto arranca da canaleta uma enorme lesma atraída pela água de onde saem as plantas. Logo em seguida, joga um elemento higienizador em pó no lugar. Aldano se anima.
-É, pensa um pouco e me dá a resposta na janta, viu? Viu?
-Sim.
Braz não quer ir, mas não saber dizer não. Aldano já se zanga com seu entusiasmo aqui, imagine então com uma declaração aberta de que não quer sair do campo de trabalho. De alguma forma, Braz gosta de estar aqui. Gosta de trabalhar. Ele não pensa no que há lá fora, porque acha que não resta mais nada para ele lá. Não havia muito antes. Aqui não, ele tem um trabalho, ele tem algo para se ocupar. Ele faz bem feito, ele é reconhecido - já foi cinco vezes seguidas o trabalhador do mês, ganhando de presente cinco medalhas de zinco. Além disso, ele está trabalhando por algo maior. Se não fosse pelos alimentos produzidos pelos prisioneiros aqui no campo o país não teria atravessado a crise de fome. As frutas, legumes, peixes e aves que Braz colhe e trata salvou milhares de pessoas e está deixando elas mais saudáveis a cada dia.
Um veículo de metal de forma arredondado que move-se como uma carroça, com um guarda em seu dorso, passa perto da canaleta. Aldano se afasta, mas lentamente, como se estivesse olhando a água das outras plantas. Antes de ir ele dá um tapa nas costas do amigo e diz:
-Te vejo no jantar então!
O dia demorou a passar. Geralmente passa rápido para Braz, sempre ocupado com o pavilhão dos peixes ou com as plantações. Mas a proposta de Aldano o fez pensar. Pensar demais. Braz olhava as canaletas, os tanques dos peixes, as gaiolas das galinhas. Um olhar melancólico. Um olhar de quem se despede. Braz não sabe dizer não, ainda mais para seu amigo - o único -, então é certo que irá fugir amanhã, ou pelo menos tentar.
Jantar. Nunca ele temeu tanto assim a hora do jantar. Depois de tomar o habitual banho, Braz seguia com os outros prisioneiros para o refeitório. Lá podia-se comer parcela do que se produzia ali: frango com vegetais, peixe com ervas, coisas do tipo. Nos primeiros tempos, tudo o que havia de mais podre era servido aqui. Agora não.
Braz vai para sua habitual mesa. Aldano está lá esperando. Está com o nariz roxo, na certa brigou com alguém de novo.
-Então?
Aldano espera pelo sim e o obtém. Um sim nervoso, mas Aldano nem se importa.
-É isso aí, cara! Assim que se fala!
Braz não parece muito entusiasmado, mas recebe um tapão nas costas.
-Quando estivermos lá fora eu vou te levar pra conhecer minha cidade. Não que seja bonita, sabe, mas lá tem um dos melhores puteiros da região. Eu vou te apresentar alguém... Dona Jezebel! Ahahah.
Aldano ria, enquanto mastiga um punhado de arroz integral e milho. Braz apenas observava os grãos de milho que saiam de sua boca caírem na mesa ou no chão.
-Depois vamos ver o mar, cara. Você não sabe quanta falta eu sinto do mar, cara! Você já viu o mar?
-Não...
-Você vai ver, vai se impressionar. É como uma lagoa grande, só que mais escura e mais agitada. Você já viu uma lagoa, né?
-Não...
-Puta merda! Aonde você vivia? Não ter mar dá pra entender, mas não ter lagoa...
Enquanto falava Braz já sofria o desgosto de enfrentar o mundo de novo. Mas dessa vez, pelo menos, ele estaria com o amigo. Aldano, por sua vez, estava já sentindo o sabor da liberdade. Sorria, entre uma garfada e outra. Os presos ao lado estavam desconfiados; esse homem nunca ri! Aldano gostava de Braz. O via como um cachorro ou uma criança. Na cidade, lhe ensinaria o que é viver realmente.
Braz percebia pela primeira vez que a liberdade vinha antes de sua amizade. Isso o deu mais medo. Afinal, Aldano e ele fogem, ficam livres e seu amigo vai querer se esbaldar, esquecendo fácil fácil o companheiro. Mas já estava feito, eles fugiriam amanhã.
A noite demorou a passar para os dois: um, por ansiedade, outro, por medo. Chegou a hora: levantaram-se, vestiram seus uniformes cinzas e foram para o trabalho. Braz carrega consigo, debaixo do uniforme suas preciosas medalhas de zinco. Entraram na fila para a plantação de sorgo. Eles e os demais trabalhadores foram levados por um imenso caminhão achatado que apitava até a plantação. Lá, quatro debulhadoras os esperavam. Era difícil lidar com essa máquina. É necessário que dois homens fiquem na caldeira, enquanto dois controlam na frente seus movimentos. Há o supervisor que vigia o processo todo, passando por todo canto da enorme máquina. Aldano e Braz não eram para estar aqui, mas como há sempre mudanças de última hora o supervisor demorará a perceber isso e até os inspetores descobrirem o erro e chegarem até essa plantação eles já estarão dentro da máquina.
Aldano seguido por seu fiel colega se aproximam da seção de armazenamento. Ambos espiam. Ninguém por perto. Aldano se joga no mar de sorgo. Braz hesita por um instante, mas pula. Rapidamente, se escondem no cereal. Respirar está difícil, mas dá pra aguentar.
A plataforma onde estão começa a inclinar, jogando todo o seu conteúdo em um enorme buraco. Os fugitivos (ou candidatos á fugitivos) descem pelo encanamento da máquina como se fosse um tobogã. Aldano tenta achar alguma fresta ou algum vão na tubulação onde possa se agarrar. Conforme avançam os vão se tornam mais salientes. Aldano se segura em um deles. Braz ainda está tentando. A cabeça está a mil: cidade, puteiro, polícia, etc. Mas a mão agarra alguma coisa. O sorgo ainda está caindo. Já se pode ouvir o processador amassando os grãos e até sentir o seu calor. O vento ainda circula na tubulação. Conseguimos, diz Aldano. Braz só consegue ver na escuridão as luzes da cidade, aquele inferno. Um rapaz sozinho, cheio de fome. Quando sair dessa tubulação, Braz estará sozinho de novo. Não é possível! Não pode acontecer, pensa. Mas agora é tarde para voltar. Talvez não, pensa. Ele ainda pode continuar no campo, ele pode conseguir não sair do campo. É simples. É só seguir a tubulação.
-BRAAZ!...
O sorriso vira grito: seu fiel escudeiro escorregara para a morte. Escorregou não, deve ter se soltado. O merdinha se soltou, pensou Aldano, mas não no habitual tom de reprovação. Era mais um lamento. Não ouviu nem gritos de agonia, o idiota devia estar sorrindo. Na esteira, o laranja dos grãos tornava-se vermelho, uma pasta vermelha. A única coisa que se podia distinguir dessa pasta eram pequenos objetos luminosos. Medalhas de zinco.
A condição
Chegou uma hora que, olhando a vastidão do mar, me desesperei: onde isso acaba?
Inútil, ninguém respondeu. No barco estava somente eu. Até minha sombra parecia ter sumido. Estava só. O desespero aumentou: para onde vou?
Me imaginei eternamente perdido, eternamente á deriva até o momento em que ficaria louco, desidratado ou comido por tubarões. Ou ainda, as três coisas ao mesmo tempo.
Foram horas aflitas. Muitas horas. Meus olhos se perdiam no mar, minha cabeça se perdia naquele barco. Mas o tempo passou. Eu percebi então que poderia navegar esse barco. A direção, no entanto, não sabia, mas poderia tentar achar uma. O jeito era improvisar. Começar a remar até achar algum vestígio de terra no horizonte.
O tempo me acostumou com a idéia. O desespero havia sumido, mas vez ou outra ele me visita. No entanto, o mar e estar sozinho não me assustam mais. Ao invés de pensar nisso, penso: eu não estou sozinho, estou comigo mesmo e não estou no mar, estou no meu barco. Continuo a remar. Algumas vezes parece que consigo enxergar a costa, mas ela some. Não sei se é uma miragem. Pode ser uma lição também. De qualquer maneira, continuou a remar. Há dias ruins, mas há dias bons também. Não reclamo... muito. Afinal, é a vida.
E tem sido assim.
Inútil, ninguém respondeu. No barco estava somente eu. Até minha sombra parecia ter sumido. Estava só. O desespero aumentou: para onde vou?
Me imaginei eternamente perdido, eternamente á deriva até o momento em que ficaria louco, desidratado ou comido por tubarões. Ou ainda, as três coisas ao mesmo tempo.
Foram horas aflitas. Muitas horas. Meus olhos se perdiam no mar, minha cabeça se perdia naquele barco. Mas o tempo passou. Eu percebi então que poderia navegar esse barco. A direção, no entanto, não sabia, mas poderia tentar achar uma. O jeito era improvisar. Começar a remar até achar algum vestígio de terra no horizonte.
O tempo me acostumou com a idéia. O desespero havia sumido, mas vez ou outra ele me visita. No entanto, o mar e estar sozinho não me assustam mais. Ao invés de pensar nisso, penso: eu não estou sozinho, estou comigo mesmo e não estou no mar, estou no meu barco. Continuo a remar. Algumas vezes parece que consigo enxergar a costa, mas ela some. Não sei se é uma miragem. Pode ser uma lição também. De qualquer maneira, continuou a remar. Há dias ruins, mas há dias bons também. Não reclamo... muito. Afinal, é a vida.
E tem sido assim.
sábado, 16 de outubro de 2010
Balancete
Eu tenho hábito de fazer uma auto-avaliação de tempos em tempos da minha vida. Resolvi fazer o mesmo nesse blog. Calma não vou reavaliar aqui a minha vida, vou reavaliar o blog.
Muito bem, comecemos pelo nome: afoturismos. Supõe-se que ele se dedique somente ao futuro e em frases curtas. Logo na apresentação esclareci que não me dedicaria apenas á aforismos e futurismos, mas á ficção científica como um todo, mas principalmente á steampunk, o ramo que mais me interesso. No entanto, poucos foram os contos steamers aqui. Um deles, Entre dois mal ou a Segunda Viagem dos Acuntsu, está incompleto até hoje. O motivo? Preguiça e falta de inspiração. Por favor não ache que estou debochando, estou falando sério. Vou esclarecer meu processo criativo: eu agarro uma idéia (digamos, por exemplo, que a idéia seja sobre um mandarim muito rico que procure a vida eterna) e trabalho em cima dela nas horas vagas (aí vão surgindo o cenário, os demais personagens), mas a história só começa a se desenvolver quando me sinto inspirado (o que é um pouco raro, mas acontece). Quando entro na atmosfera da história eu deixo ela fluir, de modo que quando tenho que sair dela demoro a entrar de novo.
Não consegui mais retornar ao conto dos Acuntsu, foram muitas provas, trabalhos e projetos e para continuar a história teria de me inteirar de novo do seu mote e esperar para entrar, algum dia, na sua atmosfera de novo.
Vocês que me acompanham descobriram que a maioria dos contos não possui a mesma força que, penso eu, o conto dos Acuntsu possui. Lamento, não produzo genialidades, apenas deixou sair da minha cabeça alguns temas e histórias que precisam sair. Eu explico: precisam sair pois isso me ajuda a melhorar o modo como expresso. Sendo assim esse blog, além de ser muito importante para a ficção científica nacional (até parece...), é também um enorme caderno de rascunhos. Eu, que sempre fui muito visual, aqui tento ser mais textual, tentar utilizar a força das palavras. Mas é muito difícil, amigo. As palavras são muito traiçoeiras ás vezes, muitas me fogem quando mais preciso. Mas deixa pra lá, não quero fazer aqui um manifesto contra as palavras, voltemos ao blog...
Há alguns post que abordo temas, ao invés de criar histórias. Os primeiros foram sobre a steampunk, depois alguns sobre invenções estrambóticas, mas reais (caso do Tião Coió e do homem da lambreta envernizada á vapor). Em um post tentei me fazer de flanêur, mas acabei flambado. Além disso, há alguns posts sobre a morte também. Quem não me conhece, ao ver essa profusão de artigos sobre a morte há de pensar que sou gótico. Apenas é um tema que muito me interessa e de que faço questão de abordar quando acho próprio. Além disso, aproveitei e desenterrei uma história minha sobre o tema (A Visita).
Analisando bem, os minicontos e aforismos ficaram na geladeira. Assim sendo trai a idéia do blog de trazer narrativas condensadas, rápidas e pontuais. Antes que me mandem para a masmorra, quero que saibam que tenho muitos minicontos e aforismos escritos aqui em meus cadernos. Em breve os colocarei aqui, só não os coloquei antes por falta de tempo (época de provas, chegando o fim do ano, você sabe).
É, foi isso. Não doeu nada (pelo menos em mim, não). Agora sabemos, pelo menos, o que podemos melhorar. Até o próximo balancete.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Minicontos
O inseto transparente passeia delicadamente pela casa se perguntando aonde foram os inconvenientes gigantes de chinelo.
A senhora encostada na pia descascava o peixe.
"Descascar acari não é fácil, não! Tem todas umas manhas. A faca não pode raspar muito. Naõ pode ser que nem descasca mandioca, tem que ser como se tivesse pincelando, entendeu? Pintando um quadro. É... Descascar acari é uma arte!"
Ele ligava, ninguém atendia. Onde estaria ela? Com outro? Não é possível! E ele aqui no parque esperando ela chegar a uma hora! Liga mais uma vez, ninguém atende. É muita falta de consideração, viu! opa, alguém atende, é a mãe dela:
-Beto? Tudo bem? A Joana tá dormindo. Quer que eu acorde ela?
-Não, não, não precisa.
Desliga. Pô, dormindo?! E o nosso encontro no parque? Peraí... Liga de novo.
-Alô, dona Maria? Ela tá dormindo? Tem certeza mesmo?
A senhora encostada na pia descascava o peixe.
"Descascar acari não é fácil, não! Tem todas umas manhas. A faca não pode raspar muito. Naõ pode ser que nem descasca mandioca, tem que ser como se tivesse pincelando, entendeu? Pintando um quadro. É... Descascar acari é uma arte!"
Ele ligava, ninguém atendia. Onde estaria ela? Com outro? Não é possível! E ele aqui no parque esperando ela chegar a uma hora! Liga mais uma vez, ninguém atende. É muita falta de consideração, viu! opa, alguém atende, é a mãe dela:
-Beto? Tudo bem? A Joana tá dormindo. Quer que eu acorde ela?
-Não, não, não precisa.
Desliga. Pô, dormindo?! E o nosso encontro no parque? Peraí... Liga de novo.
-Alô, dona Maria? Ela tá dormindo? Tem certeza mesmo?
Subterrâneos
Quando era criança acreditava que as paredes eram ocas e ali dentro habitavam pequenas pessoas, pequenos seres. Imaginava uma multidão de cosinhas andando lá dentro, como se fosse o centro de uma cidade.
Á noite, esperando o sono chegar, ás vezes eu olhava para as fendas da parede e podia ver seus rostos, espiando, vendo se não tinha ninguém acordado. Eu fingia que estava dormindo e esperava eles saírem para ver o que iam fazer, mas nunca saíram, acho que eram desconfiados demais.
O gato da minha prima não gostava de ficar no meu quarto, ficava eriçado. Acho que ele sentia os bichinhos da parede, mas era só no meu quarto. Ou seja, será que eles só viviam nas paredes do meu quarto? Nunca descobri ao certo. Eu já pensei uma vez em pegar um martelo e quebrar uma parte da parede para ver se achava eles, mas ficava sempre com medo de matar eles com isso. Então nunca fiz, mas sempre suspeitava.
A idéia nunca me desapareceu assim totalmente. Hoje não penso que em todas as paredes existam criaturinhas, mas pelo menos a daquele meu quarto tinha sim. Disso tenho quase certeza. Quando fui da Rosacruz uma vez tentei me comunicar com eles, telepaticamente. Fiquei umas horas parado em frente á parede tentando extrair algo dela. Cansado, depois de um tempo, coloquei a mão sobre ela e senti ela pulsando, como se tivesse cheia de vida. Desde então minha certeza sobre sua existência é patente.
Minha amiga um dia me veio com um livro proibido da Biblioteca do Exército, o irmão dela era militar, dizendo que a terra era oca, os maias haviam escapado para o centro da terra e ali viviam até hoje. Um colega meu achou ridículo isso, eu não. Ora, se existem gente na minha parede porque não existiriam pessoas debaixo da terra?
Á noite, esperando o sono chegar, ás vezes eu olhava para as fendas da parede e podia ver seus rostos, espiando, vendo se não tinha ninguém acordado. Eu fingia que estava dormindo e esperava eles saírem para ver o que iam fazer, mas nunca saíram, acho que eram desconfiados demais.
O gato da minha prima não gostava de ficar no meu quarto, ficava eriçado. Acho que ele sentia os bichinhos da parede, mas era só no meu quarto. Ou seja, será que eles só viviam nas paredes do meu quarto? Nunca descobri ao certo. Eu já pensei uma vez em pegar um martelo e quebrar uma parte da parede para ver se achava eles, mas ficava sempre com medo de matar eles com isso. Então nunca fiz, mas sempre suspeitava.
A idéia nunca me desapareceu assim totalmente. Hoje não penso que em todas as paredes existam criaturinhas, mas pelo menos a daquele meu quarto tinha sim. Disso tenho quase certeza. Quando fui da Rosacruz uma vez tentei me comunicar com eles, telepaticamente. Fiquei umas horas parado em frente á parede tentando extrair algo dela. Cansado, depois de um tempo, coloquei a mão sobre ela e senti ela pulsando, como se tivesse cheia de vida. Desde então minha certeza sobre sua existência é patente.
Minha amiga um dia me veio com um livro proibido da Biblioteca do Exército, o irmão dela era militar, dizendo que a terra era oca, os maias haviam escapado para o centro da terra e ali viviam até hoje. Um colega meu achou ridículo isso, eu não. Ora, se existem gente na minha parede porque não existiriam pessoas debaixo da terra?
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Museu da Morte

Recentemente descobri que minha colega, Ludmila Puzzi, está envolvida na construção de um museu em São José do Barreiro, Vale do Paraíba. Bem, o tema do museu não é exatamente sobre a cidade, muito menos sobre a escravidão ou o café; é um museu sobre a morte. Senão me engano é o primeiro museu orientado para esse tema.
Bem, não é uma iniciativa gótica, embora eu ache que eles iriam adorar, mas uma proposta de estudar a mentalidade, como o homem encarou a morte ao longo da história. A inspiração básica aí seria o trabalho do historiador francês Phillipe Àries, mas também ao historiador João José Reis que estudou os rituais mortuários entre escravos e fazendeiros e reconheceu neles marcas da sociedade colonial. Aliás, o trabalho de Ludmila foi exatamente nessa direção ao enfatizar o Cemitério de Escravos de São José do Barreiro e as transformações que aconteceram em sua geografia e seu simbolismo no decorrer das mudanças sociais.
Uma das preocupações iniciais, segundo ela mesma revelou, seria o que expor no museu. Antes de tudo tenho que esclarecer que o museu se situará dentro do próprio Cemitério de São José do Barreiro, então uma excursão pelo local já é ponto fundamental da futura instituição. No entanto, necessita-se de mais materiais para enriquecer o acervo e poder demonstrar a mentalidade sobre a morte. Achei que seria interessante demonstrar a mudança da mentalidade através da arte, aliás objeto privilegiado da análise dos historiadores da mentalidade, sendo assim, temos um acervo quase infinito: desde poemas, contos populares (como os que falei aqui anteriormente), quadros, fotos (no final do século XIX era costume tirar fotos dos falecidos e deixá-las com a família e com os ateliês), esculturas, etc.
Ainda não há data para a instalação do museu, mas até lá ainda dá para contribuir e muito através de sugestões aqui, nesse link.
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Aposentadoria
Corria pelo mato, olhando a cada passo desordenado apra trás, tentando ver se o rastreador continuava atrás dele. Estava muito escuro, só que via eram sombras, não tinha certeza se aquela ali era uma árvore ou o caçador. Na dúvida, continuava correr, com mais força ainda.
Um piso em falso, caiu do barranco. Desesperado tentou encontrar algum canto onde pudesse se esconder pelo menos. Tateando o chão se cortara com um caco de vidro ou pedaço de madeira, não sabe. É o fim: ele vai sentir o cheiro.
Sem outra idéia, deita-se no chão e fica imóvel com a esperança de que o rastreador não o veja. Esconde a mão ferida debaixo do corpo. Olha pra cima, para o alto do barranco, consegue ver perfeitamente o seu topo. Um chapéu, vê um chapéu aparecer. Lentamente a figura se mostra. Com uma capa um pouco esburacada nas pontas, o rastreador pára e observar a noite. O homem pode ver sua silhueta perfeitamente; sua frio. Ele coloca a mão no rosto, aperta alguma coisa, deve ser seu potente nariz de mentira. Ninguém sabe como ele funciona, só sabe que quando ele coloca essa coisa para funcionar sente o cheiro de uma paca a dois morros de distância.Eles são conhecidos por duas coisas: seu olfato e sua impiedade.
O homem sua, tenta diminuir o som de sua respiração. O rastreador meneia a cabeça. Olha para o fundo do barranco: pronto, foi achado.
Não há mais o que fazer. O impulso é fugir e é o que o homem faz. Levanta e dispara.O estampido seco, o homem cai no chão. Urra de dor, tenta levantar, mas o tiro foi bem nas costas. Não consegue. Rasteja um pouco. Ouve o som das botas do rastreador: estão ficando próximas. Mas desiste, não conseguirá ir muito longe. Vira-se e apela ao caçador:
-Por favor, senhor! Não me leve de volta... por favor (gagueja) me mata aqui!
O rastreador pega as mãos trêmulas do homem e as amarra. O levanta e coloca sobre as costas. O homem continua implorando, entre um grito de dor e outro. Chegam até á carroça metálica do rastreador. Joga o homem na caçamba e liga o motor, que mais parece uma velha tossindo.
-Me mata, senhor, por favor! O barão vai me maltratar por uns meses, ninguém merece morte loga do jeito que ele faz com os fugidos, ninguém merece... O senhor num sabe o que é aquilo!
A voz metálica finalmente responde ás súplicas:
-Eu só pego as pessoas, não mato.
-Mas, senhor, me mata, pelo amor de Deus! Eu te do tudo o que eu tenho, juro! Debaixo da minha cama, pode procurar, tem uma caixa cheio de conchas que eu guardei nesses anos todos. É sua! Só me mata antes!
O rastreador continua indiferente.
-Ninguém merece aquilo... meus parentes tudo morreram assim, depois de semanas na sala do matadouro, e a gente ouvindo eles gritar por nós... se tivessem matado eles antes não teriam sofrido tanto... por favor, senhor, me mata!
O rastreador começa a se incomodar com a ladainha.
-Se o senhor pudesse fazer uma pessoa que goste sofrer menos não faria? Eu sei que o senhor não me conhece, mas o que eu peço é pouco. O senhor diz que acertou errado e eu morri e não leva bronca do barão, é isso!
Silêncio.
-Por favor, senhor, eu não aguento mais tanto sofrimento, não aguento mais viver naquelas minas, ver minha gente sendo judiada. Se o senhor visse todo dia o que eu vejo também ia querer fugir de lá, mesmo que fosse morto.
O rastreador finalmente fala:
-Então porque não se matou?
-Porque eu tinha esperança de sair vivo de lá, mas agora, senhor... se o que me resta é a morte eu quero a morte. Tudo pra não voltar pra lá.
O rastreador pára a carroça de metal. Sai da frente e vai até a caçamba. Olha por uns instantes o pobre diabo. Pega a arma. Antes de se ouvir o tiro, o condenado diz baixinho, como um alívio:
-Muito obrigado...
O rastreador volta para a frente da carroça e liga de novo a máquina. Ainda não entendeu porque fez isso. Talvez seja o cansaço, afinal são mais de vinte anos ou mais fazendo isso. Quantos já não pediram o mesmo. É o cansaço. Parece que isso nunca vai acabar. Bem, talvez um dia isso acabe...
Um homem corre pela casa, esbarra na mesa da cozinha, deixa cair o vaso de flores que a enfeitava. Atravessa o corredor quase tropeçando. Entra em um quarto. Revira o armário, tenta achar a arma que costuma guardar aqui. Não acha. Será que ele a pegou? Vê a janela, tenta abrí-la. O som da porta fechando. Olha para trás e lá está a figura obscura, de chapéu, arma em punho e a capa toda esburacada (um pedaço ficou preso na porta). Desiste de arrombar a janela. tenta ser calmo e encarar o perigo.
-Mas o que você quer? Te pagaram para me pegar, né? Diga, quem pagou? Quanto foi? Você sabe que eu posso dar muito mais pra você não me pegar!
A voz metálica responde:
-Seu barão, não vim aqui pra te pegar não... vim aqui pra te matar.
O rosto do homem empalidece, está petrificado.
-Mas quem...
-Não tem ninguém não, seu barão. Tô fazendo isso por minha conta... vim pedir minha aposentadoria.
O tiro atravessa a janela, um corpo cai ao chão e outro sai pela porta, sereno... finalmente.
Um piso em falso, caiu do barranco. Desesperado tentou encontrar algum canto onde pudesse se esconder pelo menos. Tateando o chão se cortara com um caco de vidro ou pedaço de madeira, não sabe. É o fim: ele vai sentir o cheiro.
Sem outra idéia, deita-se no chão e fica imóvel com a esperança de que o rastreador não o veja. Esconde a mão ferida debaixo do corpo. Olha pra cima, para o alto do barranco, consegue ver perfeitamente o seu topo. Um chapéu, vê um chapéu aparecer. Lentamente a figura se mostra. Com uma capa um pouco esburacada nas pontas, o rastreador pára e observar a noite. O homem pode ver sua silhueta perfeitamente; sua frio. Ele coloca a mão no rosto, aperta alguma coisa, deve ser seu potente nariz de mentira. Ninguém sabe como ele funciona, só sabe que quando ele coloca essa coisa para funcionar sente o cheiro de uma paca a dois morros de distância.Eles são conhecidos por duas coisas: seu olfato e sua impiedade.
O homem sua, tenta diminuir o som de sua respiração. O rastreador meneia a cabeça. Olha para o fundo do barranco: pronto, foi achado.
Não há mais o que fazer. O impulso é fugir e é o que o homem faz. Levanta e dispara.O estampido seco, o homem cai no chão. Urra de dor, tenta levantar, mas o tiro foi bem nas costas. Não consegue. Rasteja um pouco. Ouve o som das botas do rastreador: estão ficando próximas. Mas desiste, não conseguirá ir muito longe. Vira-se e apela ao caçador:
-Por favor, senhor! Não me leve de volta... por favor (gagueja) me mata aqui!
O rastreador pega as mãos trêmulas do homem e as amarra. O levanta e coloca sobre as costas. O homem continua implorando, entre um grito de dor e outro. Chegam até á carroça metálica do rastreador. Joga o homem na caçamba e liga o motor, que mais parece uma velha tossindo.
-Me mata, senhor, por favor! O barão vai me maltratar por uns meses, ninguém merece morte loga do jeito que ele faz com os fugidos, ninguém merece... O senhor num sabe o que é aquilo!
A voz metálica finalmente responde ás súplicas:
-Eu só pego as pessoas, não mato.
-Mas, senhor, me mata, pelo amor de Deus! Eu te do tudo o que eu tenho, juro! Debaixo da minha cama, pode procurar, tem uma caixa cheio de conchas que eu guardei nesses anos todos. É sua! Só me mata antes!
O rastreador continua indiferente.
-Ninguém merece aquilo... meus parentes tudo morreram assim, depois de semanas na sala do matadouro, e a gente ouvindo eles gritar por nós... se tivessem matado eles antes não teriam sofrido tanto... por favor, senhor, me mata!
O rastreador começa a se incomodar com a ladainha.
-Se o senhor pudesse fazer uma pessoa que goste sofrer menos não faria? Eu sei que o senhor não me conhece, mas o que eu peço é pouco. O senhor diz que acertou errado e eu morri e não leva bronca do barão, é isso!
Silêncio.
-Por favor, senhor, eu não aguento mais tanto sofrimento, não aguento mais viver naquelas minas, ver minha gente sendo judiada. Se o senhor visse todo dia o que eu vejo também ia querer fugir de lá, mesmo que fosse morto.
O rastreador finalmente fala:
-Então porque não se matou?
-Porque eu tinha esperança de sair vivo de lá, mas agora, senhor... se o que me resta é a morte eu quero a morte. Tudo pra não voltar pra lá.
O rastreador pára a carroça de metal. Sai da frente e vai até a caçamba. Olha por uns instantes o pobre diabo. Pega a arma. Antes de se ouvir o tiro, o condenado diz baixinho, como um alívio:
-Muito obrigado...
O rastreador volta para a frente da carroça e liga de novo a máquina. Ainda não entendeu porque fez isso. Talvez seja o cansaço, afinal são mais de vinte anos ou mais fazendo isso. Quantos já não pediram o mesmo. É o cansaço. Parece que isso nunca vai acabar. Bem, talvez um dia isso acabe...
Um homem corre pela casa, esbarra na mesa da cozinha, deixa cair o vaso de flores que a enfeitava. Atravessa o corredor quase tropeçando. Entra em um quarto. Revira o armário, tenta achar a arma que costuma guardar aqui. Não acha. Será que ele a pegou? Vê a janela, tenta abrí-la. O som da porta fechando. Olha para trás e lá está a figura obscura, de chapéu, arma em punho e a capa toda esburacada (um pedaço ficou preso na porta). Desiste de arrombar a janela. tenta ser calmo e encarar o perigo.
-Mas o que você quer? Te pagaram para me pegar, né? Diga, quem pagou? Quanto foi? Você sabe que eu posso dar muito mais pra você não me pegar!
A voz metálica responde:
-Seu barão, não vim aqui pra te pegar não... vim aqui pra te matar.
O rosto do homem empalidece, está petrificado.
-Mas quem...
-Não tem ninguém não, seu barão. Tô fazendo isso por minha conta... vim pedir minha aposentadoria.
O tiro atravessa a janela, um corpo cai ao chão e outro sai pela porta, sereno... finalmente.
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